Opinião

A tecnologia da informação faz a diferença

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Falhauber coluna circulo Henrique Faulhaber

É diretor da Calandra, empresa de consultoria e tecnologia especializada em soluções para a melhoria de governança e de gestão de organizações. É também conselheiro titular do Comitê Gestor da Internet no Brasil, representando o setor empresarial de software e serviços.


Desde que Nicholas Carr publicou, em 2003, o famoso artigo “IT doesn’t matters” (“Tecnologia da Informação é irrelevante”) na revista Harvard Business Review, constatou-se que boa parte das avaliações do autor sobre a desimportância da Tecnologia da Informação para a obtenção de vantagens competitivas às organizações estava equivocada.

O crescimento do uso da internet em escala global e a transformação que as tecnologias da informação e da comunicação produziram em praticamente todos os setores da economia surpreenderam aqueles que julgavam que as TICs se tornariam simplesmente uma infraestrutura “commodity” barata e disponível para todos e que, portanto, não ofereceria mais nenhum diferencial.

O papel da internet pode ser comparado ao da energia elétrica, como um elemento disruptivo nas economias. Mas, diferentemente da eletricidade – que tornou-se efetivamente infraestrutura ubíqua e que só propiciou, a partir de um certo momento, maiores vantagens competitivas para alguns poucos –, o uso de tecnologias da informação e da comunicação em escala global determina o sucesso das organizações e dos países que conseguem se posicionar na liderança de seu uso.

Em uma pesquisa feita pelo Instituto Mckinsey (intitulada “Internet matters: the net’s sweeping impact on growth, jobs and prosperity”) em 2011, já foi constatado que a contribuição da internet para o produto interno global da economia é maior que a do setor de agricultura ou a do de energia, além de ultrapassar o Produto Interno Bruto da Espanha ou do Canadá. Isso sem contar que o incremento do PIB nos países mais desenvolvidos cresceu mais de 20% em cinco anos por causa da internet.

Essa pesquisa conduzida em 13 países (entre os quais o Brasil) concluía que 75% da geração de valor relacionado à internet advêm de setores tradicionais da economia global e que esses ganhos são obtidos principalmente do aumento de produtividade. Apesar disso, a internet, segundo a pesquisa, gera 2,6 contratações para cada emprego que é perdido por meio do uso da tecnologia.

A digitalização da economia não se restringe somente ao uso das tecnologias para tornar mais eficientes os mecanismos de gestão, produção e distribuição. Ela abriu efetivamente a oportunidade de novos modelos de negócios, tanto nos setores da chamada nova economia como nos tradicionais, pois toda a cadeia de produção, distribuição e consumo é fortemente afetada pela conectividade global propiciada pela internet. Mas por que as tecnologias não se tornaram mercadoria de fácil acesso por meio das quais todos ficam nivelados à medida que têm acesso a elas? E por que representam efetivamente vantagens competitivas?

O custo da capacidade de processamento, de uso de software e de implantação de redes de comunicação vem caindo, com processadores e redes cada vez mais rápidos e com software e equipamentos oferecidos na modalidade de serviços sobre a demanda. Os ganhos de produtividade e a geração de valor associados à tecnologia não advêm, porém, do uso das tecnologias em si, mas de estratégias empresariais que precisam levar em consideração os desafios de digitalização da economia e a forma por meio da qual as ferramentas tecnológicas e metodologias de gestão podem ser utilizadas, alinhadas com a estratégia para acompanhar o ritmo das mudanças do ambiente competitivo.

Para explorar somente um exemplo de tecnologia da informação que faz a diferença competitiva, vamos considerar o fenômeno do “big data”. Esse termo foi cunhado para designar coleções de informações que contenham variáveis com alto grau de complexidade e que possam ser exploradas e analisadas em um número de arranjos possíveis muito grande.

Uma aplicação de “big data” muito familiar aos usuários de internet é a capacidade das redes sociais de oferecerem propaganda personalizada de acordo com os hábitos de navegação, o uso de palavras-chaves e a interação com o grupo de contatos. Outra aplicação conhecida de “big data” é a dos serviços de recomendação personalizada de produtos em portais de comércio eletrônico, que levam em consideração os padrões de compra dos consumidores.

Mas a utilização das tecnologias na análise de complexas massas de dados, na realização de novas consultas, na elaboração de conclusões e na tomada de decisões tem aplicações em muitas áreas, não ficando restrita aos serviços de internet onde o seu uso é mais aparente.

Por exemplo: o uso de “big data” pela Administração Pública, que produz grandes volumes de dados de alta complexidade, será cada vez mais importante para definir políticas públicas e para controlar a execução dessas políticas, acompanhando o desempenho dos indicadores e dos projetos estratégicos.

Também na chamada “internet das coisas” – na qual os dispositivos têm sensores que geram dados a serem monitorados e analisados –, as técnicas de “big data” são essenciais, pois os dispositivos conectados têm correlação entre si e é necessário até mesmo uma tomada de decisões em tempo real.

O que faz a diferença no uso das TICs pelas organizações é a intenção de gestão e as atitudes daí decorrentes na utilização desse ferramental indispensável para a análise e a tomada de decisão no tempo que o ambiente econômico exige. São essas iniciativas tomadas pela gestão das empresas e uma arquitetura tecnológica flexível, econômica e ágil que estão permitindo os ganhos competitivos e de produtividade.

A tecnologia da informação nessa perspectiva planejada e inovadora, longe de se tornar “commodity”, estará alinhada com os valores essenciais de busca por resultados crescentes e consistentes pelas organizações. O desafio de aumento de produtividade tão necessário no Brasil passa obrigatoriamente por uma melhor compreensão do papel das tecnologias, mas depende principalmente da capacidade das lideranças de saber utilizar a tecnologia da informação como alavanca potencializadora de mudanças de cultura nas organizações, tornando-as mais capazes, a todo momento, de analisar os seus resultados para tomar melhores decisões.