Opinião

O Brasil e sua dependência

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 Peregrino coluna circulo Fernando Peregrino

É doutor em engenharia de produção pela COPPE/UFRJ. Foi presidente da Faperj e do Proderj, além de secretário de Ciência e Tecnologia do estado do Rio de Janeiro.


Nosso futuro está cada vez mais comprometido. Pode parecer exagero essa afirmativa, mas não é. Pelo menos do ponto de vista da nossa economia. Vejamos: segundo o Banco Central, entre 2004 e 2013, 1.670 empresas brasileiras foram compradas por companhias ou fundos estrangeiros. E, no ano passado, as empresas estrangeiras remeteram ao exterior US$ 43 bilhões. Dito de outra forma, nosso parque industrial tem, cada vez mais, o seu controle fora do Brasil. Também, pudera: em poucos países, as filiais estrangeiras remetem para as suas matrizes por tecnologia.

Nesse caso, perdemos duas vezes. A primeira, porque o preço pago à matriz pode ser superestimado, pois não se conhece métrica para esse bem chamado conhecimento. Segundo, por tal despesa, a filial no Brasil não pagará imposto de renda, afinal gastos com tecnologia são considerados despesa operacional e, portanto, devem ser deduzidos antes da apuração do lucro no qual incidirá o imposto sobre a renda. Um das consequências dessa facilidade aos de fora é que perdemos a corrida do hardware e, agora, se algo não for feito, o mesmo ocorrerá com a capacidade instalada de produzir software.

O Brasil também retrocedeu quanto à base econômica e à relação com o mundo globalizado, segundo o professor Reynaldo Guimarães, da UFRJ. Em 1995, nossas exportações de produtos básicos participavam com 24% do total das vendas ao exterior; em 2012, foram a 48%. Em termos de produtos manufaturados vendidos a outros países, nos mesmos períodos, passamos de 57% a 36%!

O mais grave é que o déficit em nossa balança de pagamento por conhecimento tem crescido a cada ano: está em torno de US$ 3 bilhões. Ou seja, o país continua sendo um importador do principal insumo do século XXI, dando sinais de que continuaremos, neste milênio, a ser uma colônia. Esse triste destino parece ser confirmado pela ausência de qualidade da educação básica em nosso país. Segundo o Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), da OCDE – um organismo multilateral –, em 2013, ficamos no 58º lugar entre os 63 países pesquisados em termos de ensino de ciências.

O esforço de industrializar esse país iniciado por Getúlio Vargas a partir de 1930 parece que está sendo jogado fora. A relação entre o PIB da indústria de transformação e o PIB da agropecuária passou de 3,2 para 2,7, entre 2002 e 2010, segundo estudos do professor Guimarães. Talvez esses indicadores estejam por trás de nossa baixa taxa de crescimento econômico entre 2002 e 2014. Enquanto o Brasil teve uma média de 3,6% de alta do PIB, os demais países em desenvolvimento chegaram a 6,4%, e o restante do mundo em 3,8%.

Mas a pior das consequências dessa dependência é a colonização que fizeram em nossas cabeças. Os que defendem a proteção de nossa capacidade criativa, por exemplo, como a de produzir softwares, são vistos como antiquados e superados. A proximidade das eleições gerais é uma oportunidade para que, por um lado, os candidatos comprometam-se com a abordagem desse tema e os caminhos a trilhar pelo país e, por outro, os eleitores considerem tais comprometimentos e consequentes propostas como um item importante de sua decisão.