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Quando o sertão fica pequeno demais para tanta tecnologia

Equipe de reportagem da TI Maior foi ver de perto como a cidade de Tauá se tornou referência ao levar a tecnologia para todos

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Por Yuri Curvelo* e Leticia Rio Branco
*Enviado Especial

Fincada no sertão do Ceará, o município de Tauá poderia ser como muitos outros da região. O clima é seco e o sol, quente, como é natural ao longo do território nordestino. E as casas de pau a pique mostram que a região ainda guarda a tradição de outra época, num nítido contraste com a tecnologia latente. Tecnologia? Isso mesmo. Você leu corretamente. Tauá ocupa o décimo sétimo lugar no ranking nacional de Cidades Digitais e é a primeira do Ceará, ou seja, um exemplo que deu certo. E isso há dez anos, quando o termo era pouco conhecido nos confins do Brasil.

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O portal da cidade de Tauá, a primeira Cidade Digital do Ceará

Com quase 60 mil habitantes, Tauá respira tecnologia. E a equipe da Revista TI Maior, representada pelo jornalista Yuri Curvelo, foi conferir de perto como é essa realidade que, para muitos, ainda pode parecer improvável. Mas não é. A cidade, cujo nome Tauá quer dizer Cidade Antiga, está além de outros municípios da região e impressiona por estar no meio do sertão sendo tecnologicamente tão desenvolvida.

Segundo Elvis Gonçalves, secretário de Ciência e Tecnologia de Tauá, o projeto engloba todas as facetas do desenvolvimento tecnológico, que abriu uma janela importante para a formação no setor. “Não estamos falando sobre ‘inclusão digital’, como algumas cidades insistem em falar. Não é questão de ter um dispositivo para acessar a internet. É muito mais do que isso. Em Tauá, isso aconteceu há 10 anos, onde diversos quiosques digitais se espalharam pelo local. Ou seja, as pessoas podiam sair de casa com seu dispositivo para acessar uma rede pública de wi-fi”, relembra.

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Elvis Gonçalves, Secretário de Ciência e Tecnologia de Tauá

Hoje, Tauá, após oferecer internet gratuita para os moradores – que inclusive podem melhorar a recepção do sinal comprando uma antena externa -, fomenta um cenário completamente inovador para o setor de TI nacional.

A Cidade Digital, localizada no centro de Tauá, se desenvolve a partir de quatro princípios: conhecimento, capacitação, empreendedorismo e sustentabilidade. Dessa forma, crianças, jovens, adultos e até mesmo idosos se tornaram parte integrante da democratização da tecnologia. “Estamos falando de pessoas mais velhas que moram em lugares simples mas após jogar milho para as galinhas que criam, pegam seus dispositivos para se comunicar com os filhos que foram embora da cidade, ou conhecer seus netos pelo Skype”, conta Elvis Gonçalves.

O empreendedorismo é retratado por jovens que desenvolvem softwares e aplicativos, que vão desde uma startup de desenvolvimento de ferramentas para controlar estoque de lojas da região a projetos específicos para redes sociais. De acordo com Elvis, os jovens não pensam mais em se capacitar para ir ao Vale do Silício, por exemplo, ou planejam se mudar para uma cidade grande. “Eles pretendem estudar cada vez mais aqui e tirar projetos do papel que possam ajudar no desenvolvimento do próprio lugar onde vivem”, explica.

E a parte sustentável não fica para trás: o descarte de lixo eletrônico é reduzido consideravelmente. Monitores de computadores que não são mais utilizados viram lixeiras ou vasos de planta. CPUs velhos viram estantes e até mesmo assentos confortáveis viram pufes, ao serem revestidos por couro.

Ou seja, bem-vindo a bordo da reportagem especial desta edição da Revista TI Maior. E que Tauá seja exemplo para muitas outras cidades do Brasil e do mundo!

Uma política voltada para a o desenvolvimento e a democratização da tecnologia

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Deputado Domingos Neto: tecnologia inovadora desde o começo

O primeiro passo para transformar Tauá numa Cidade Digital surgiu há dez anos, quando a prefeitura decidiu seguir o município de Piraí, localizado no estado do Rio de Janeiro. “O nosso principal diferencial foi justamente a infraestrutura, pois tínhamos um anafalbetismo digital muito grande. Não tínhamos a rede de telefonia que existe hoje e nem existiam os smartphones. Mas saímos na frente também na questão da capacitação da população em todas as idades, cada um com seu modelo diferente”, diz o deputado federal Domingos Neto.

Ele cita como exemplo inovador da época o programa TELESAUDADE, que disponibilizava para os moradores o Skype como meio de comunicação com os parentes que haviam deixado Tauá em busca de melhores condições de vida no polo urbano. Tal comunicação somente era possível através dos quiosques digitais, que tinham um computador à disposição com internet.

Domingos Neto contou que, paralelamente, foi criada uma empresa pública, chamada Digitauá. “Dessa forma, passamos a concorrer com o mercado de venda de internet de forma mais competitiva, além de sermos a empresa detentora do provedor principal. Com isso, a meta do valor nacional de banda larga de 2014, por exemplo, que era de 1MB, atingimos em 2010”.

O resultado por ser uma Cidade Digital começou a aparecer. Segundo um estudo realizado em 2010, mais de 15 mil pessoas capacitadas deram início ao nascimento de uma nova mão de obra na região. “Notamos que houve uma mudança quando as pessoas começaram a exercer novas profissões, desde pequenos consertos à manutenção de PCs, por exemplo”, diz Domingos Neto.

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Torre Digital de Tauá

E a cidade não parou de investir. Procurada por uma empresa de telemarketing para prestação de serviços, Tauá viu que não podia utilizar o serviço por conta da falta de banda larga por cabeamento de fibra ótica. “Foi quando percebemos que precisávamos fazer parte do cinturão digital do Ceará, já que Fortaleza possui cabeamento internacional. Com isso, começamos a pegar a reprodução do Wmax para ter um suporte maior e, em cada ponto público, como praças e escolas, colocávamos antenas receptoras. E nos tornamos o primeiro município digital, incluindo a zona rural”, revela Domingos Neto.

A tecnologia chamou a atenção de startups, que começaram a se desenvolver na região, pois era o único lugar capaz de oferecer uma boa qualidade de banda larga. Empresas dos mais diversos setores, sendo que a Microsoft está incluída nessa lista, enxergaram a oportunidade e hoje, Tauá deixou de lado, desde 2011, o software livre. “Fizemos uma parceria com a Microsoft e hoje utilizamos o software deles. Isso dá um diferencial para quem se forma, pois já sai com o diploma Microsoft”, acrescenta Domingos Neto, que possui 30 microempresários na incubadora de Tauá, onde a reciclagem digital é um dos principais diferenciais. “Monitores se transformam nas lixeiras da cidade e temos mais de 20 mil pessoas capacitadas. É um sertão mesmo, onde as pessoas são muito pobres, mas mostramos que é possível crescer através da tecnologia, dando oportunidade para elas”, afirma Domingos Neto.

Clique aqui e veja a entrevista do deputado Domingos Neto.

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Laboratório Digital de Tauá

E a população só ganha: pode fazer chamadas por Voip e cerca de 10% do PIB do município é economizado somente pelo fato de ter internet. Dessa maneira, a economia cresce a cada dia. “Se você for em qualquer outra cidade do nordeste com as mesmas características e dificuldades geográficas de Tauá, não vai encontrar nada que possa ser comparado ao que conquistamos”, diz o deputado.

Hoje, profissionais capacitados desenvolvem software para a prefeitura, empresas formadas nas incubadoras são fornecedoras de instituições privadas, o Instituto Federal possui uma linha de pesquisas na área de TI e patentes criadas lá. “Se formos imaginar Tauá sem a tecnologia que possui, seria difícil ter a mesma qualidade de vida. Não se surpreenda se passar por uma praça e ver um morador com laptop aberto, por exemplo”, observa Domingos Neto.

Futuramente, a ideia é aumentar ainda mais o poder de empregabilidade dos capacitados, já que a parte pedagógica já está atingindo o seu ápice, bem como conquistar mais empresas para se instalar no município.

“Estamos dando todas as condições para que empresas de todo o ramo se instalem em Tauá, como os incentivos necessários e o espaço físico. A ideia é estabelecer uma parceria com o Governo Federal, a Finep, a CNPq e a Finep para que possamos ter força para pesquisar melhorias na rede municipal de tecnologia em internet, abrindo mais espaço ainda para os que querem desenvolver tecnologias relacionadas a esse campo. Estamos focados em nos tornar uma referência no setor empreendedor de TI”, espera o deputado.

 

Patrícia Aguiar explica como a Prefeitura de Tauá conseguiu alavancar o desenvolvimento econômico baseado numa política inclusiva de TI

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Patrícia Aguiar, prefeita de Tauá

A prefeita da cidade de Tauá, Patrícia Aguiar, mesmo em campanha concorrendo ao terceiro mandato, conversou conosco sobre os principais desafios enfrentados quando a cidade começou o seu processo de se tornar uma Cidade Digital.

“Na época, os dados eram mínimos e, naturalmente, pelo fato de ser uma região semiárida, tudo era prioridade: distribuição de água, abastecimento, sem contar que mais de 50% do município não tinha energia elétrica. Por isso, resolvemos trabalhar em várias frentes, mas procuramos colocar nossas bases na educação e na qualificação de pessoas. Só existe uma mudança social e de realidade quando investimos nessas áreas”, afirma Patrícia Aguiar.

A partir de uma cidade tecnologicamente inteligente, o desenvolvimento econômico se tornou uma consequência natural.

“Quando começamos a investir em TI como foco, sabíamos que era um caminho sem volta. Diante de todo esse aporte digital, a comunicação também foi feita de forma diferente. Proporcionamos toda a alfabetização digital para as pessoas, para que se tornassem capacitadas para usar o computador. Todas as escolas do município possuem laboratório digital, gerando impacto direto no comércio, na cultura, no emprego, na área do conhecimento, ou seja, em todos os segmentos da sociedade. E, hoje, as pessoas se comunicam de maneira muito mais simples”, avalia.

Para o futuro, Patrícia Aguiar pretende continuar os avanços e ampliar o projeto.

“Pretendemos acompanhar essa evolução a partir das escolas do futuro, oferecendo lousa digital e tablets, além das praças inteligentes. Inovação é a palavra-chave”, finaliza.

Startups em Tauá: conheça quem está inovando no município

REDE PET – Formada por três amigos que têm em comum a causa por animais, a Rede Pet começou quando eles perceberam que a ONG Quatro Patas, que disponibiliza animais para adoção, enfrentava problemas com a adoção de cadelas e cães sem raça definida.

“Muitas pessoas ainda têm muito preconceito com cachorros que foram resgatados na rua. Fomos em busca de uma resposta e descobrimos que não sabiam cuidar dos pets, principalmente das fêmeas”, diz Lynara Duarte, que teve a ideia ao lado de Gabriel Lacerda e Jonathan Torquato.

Assim, a Rede Pet se tornou uma rede social voltada para compartilhamento de dicas, fotos, músicas e vídeos sobre os pets. “Basta fazer login para ter acesso a dicas de veterinários e donos de petshops. Todas as dicas, inclusive os comentários, serão monitorados por nós”, explica Lynara.

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Lynara Duarte, Gabriel Lacerda e Jonathan Torquato, da Rede Pet

PLUMALLUME ARTESANATOS – A Plumallume Artesanatos surgiu praticamente dentro de casa. Rafael Gonçalves Lima via sua mãe fazer artesanato e não ter uma saída tão grande de mercadoria. Foi assim que, há um ano, ele decidiu fazer uma loja online de diversos produtos artesanais. “Começamos a vender pelas redes sociais, mas decidimos não somente vender os produtos da minha mãe, mas de outros artesãos e criar um e-commerce para isso”, conta.

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Rafael Gonçalves Lima, da Plumallume

Dessa forma, o empresário oferece a loja de produtos no site para artesãos de todo o município. Basta as pessoas passarem todo o material para que seja vendido. “Com essa novidade, quase 100% das nossas vendas aumentaram, pois a técnica de bater na porta não estava mais vendendo. O fato de morar numa cidade de interior era um impeditivo, e o site fez com que as vendas conquistassem mais volume”, afirma.

QRCOM – A QRCOM surgiu da ideia de se fazer um sistema de PDV específico para microempreendedores individuais. De acordo com Áquilas Cavalcante Cidrão, que deixou a carreira de analista de vendas para empreender, o software oferece cadastro de clientes e registro de todas as vendas realizadas. “Queremos que os microempreendedores deixem de usar o seu caderno de vendas. Por isso criamos um que caiba no bolso desse empresário, pois os sistemas de PDV existentes são voltados para grandes supermercados”, diz Áquilas Cavalcante Cidrão, acrescentando que a versão atual está em teste e já possui mais de 15 mil downloads.

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Áquilas Cavalcante Cidrão, da QRCom

O sistema oferece controle por celular, pagamento de clientes, gera gráficos, históricos de compras, produtos comprados, forma de pagamento, pagamento para comércio, entre outros. Já sobre o QR Code, a ideia é que ele seja um cartão de fidelidade para cada cliente. “O cliente chegará na loja e o computador irá fazer a leitura de acordo com os seus dados”, explica o empresário.

Enquanto a primeira versão é totalmente online, a segunda é mais elaborada e irá funcionar também offline. “Essa versão irá oferecer mecanismos de buscas de datas, mais opções para galerias de fotos de clientes, produtos e serviços. E o backup é todo feito automaticamente pelo servidor”, explica.

TABERNÁCULO – Os criadores Cristian Carvalho e Felipe Sales partiram do princípio do preconceito religioso. E foi assim que criaram a rede social Tabernáculo, para que as pessoas que têm religião possam discutir abertamente o tema.

Com o nome de Tabernáculo, palavra que vem do latim tabernaculum – que quer dizer “tenda”, “cabana” ou “barraca” e designa o santuário portátil onde durante o Êxodo até os tempos do Rei Davi os israelitas guardavam e transportavam a arca da Aliança, a menorá e demais objetos sagrados – , a rede social está em fase de testes.

“Criamos uma plataforma para que as pessoas possam falar sobre as suas religiões sem sofrer nenhum tipo de preconceito. É um espaço para que possam discutir sobre Deus, não somente a religião em si. É uma plataforma de Deus Online. Por isso focamos bastante na segurança, para ajudar na moderação de comentários”, diz Cristian Carvalho, que pretende usar a rede para todas as religiões, não somente para os católicos e evangélicos.

Para ser lançada, a plataforma tem investido em projetos de marketing voltados para igrejas e escolas. “Fazer uma startup assim é pensar bem fora da caixa”, acrescenta Felipe Sales.

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Cristian Carvalho e Felipe Sales, do Tabernáculo

DZC (Dengue, Zika e Chikungunya) – O aplicativo DZC (Dengue, Zika, Chikungunya) foi desenvolvido por Lucas Costa e sua principal funcionalidade é a denúncia do foco do mosquito Aedes Aegypti. Por enquanto, ele funciona apenas no município de Tauá.

“O app faz um alerta indicando o local onde tem o foco do mosquito transmissor de doenças e o aviso vai para a Central de Combate à Dengue, que toma as devidas providências de controle”, diz Lucas, que teve a ideia justamente quando houve o aumento na incidência no mosquisto em todo o municípío.

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Lucas Costa, criador do app DZC

Mais um capítulo da história de Tauá: lixo digital se transforma em vasos de plantas e lixeiras

O técnico de reciclagem Iury Max é o responsável por fazer o reaproveitamento de lixo digital descartado no Centro Tecnológico de Tauá. A prática sustentável faz com que as telas de computadores antigos sejam transformados em vasos de planta e lixeiras.

Iury defende a ideia de utilizar as telas como vasos, pois possuem espaço para a entrada de ar, além de ser uma forma sustentável de reaproveitamento de lixo e conservação da planta. Por ser um vaso resistente e não quebrar com qualquer pancada, garante maior tempo de vida da planta.

Como lixeira, o técnico explica que pode ser utilizada como as que são compradas para uso doméstico. “Basta colocar um saco plástico interno e depois retirar os resíduos quando estiver sujo, reaproveitando a carcaça. Também é possível pintá-las com as cores da coleta seletiva e separar papéis, metais, plásticos e vidros. Inclusive, a iniciativa da secretaria se espalhou não só por todo o municípios, como prefeitos de outras cidades passaram a fazer o mesmo”, explica Iury Max.

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Iury Max, Técnico de reciclagem

CONHECIMENTO E CAPACITAÇÃO

- Mostrar o instituto digital e suas atividades

EMPREENDEDORISMO

- Mostrar os projetos da startup dentro da Cidade Digital

SUSTENTABILIDADE

- Mostrar a reciclagem e descartes reaproveitados

Agradecimentos: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – Campus Tauá, Prefeitura de Tauá, Governo Municipal de Tauá.