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Software Profissional: novidades que prometem revolucionar o futuro da TI

Especialistas da área discutem os seus rumos e falam sobre o que falta para se desenvolver de maneira mais efetiva

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O setor de software profissional é um dos mais promissores do Brasil. Segundo Pedricto Rocha, professor do Departamento de Engenharia Civil da PUC do Rio de Janeiro e ex-presidente da Faperj, existem muitas características que tornam o cenário positivo. “O Brasil tem um imenso potencial, não somente pelas suas características territoriais extensas e população, como também pela diversidade cultural. Sendo assim, apresenta várias demandas emergenciais e estratégicas, considerando a necessidade de estabelecer um sistema de integração nacional e promover a inclusão social”, afirma o professor.

O Sofware Profissional-SP, ferramenta capaz de desenvolver a estrutura dessa engrenagem, abrange todas as aplicações baseadas no conhecimento técnico das ciências em geral como todos os setores da engenharia, biomédica, economia e psicologia. Logo, é nítido que a área de TI pode – e deve – contribuir para o desenvolvimento do SP.

Portanto, a discussão é ampla. Num mercado interno que ainda engatinha em muitos aspectos de sua base tecnológica, a disponibilidade de produtos é fator fundamental. “É essencial que esses produtos despertem interesse, que incorporem a inovação tecnológica e, assim, permitam a competitividade no mercado e estejam inseridos nas bases culturais. As condições locais, o estágio educacional e, principalmente, a cultura sempre serão fatores condicionantes”, opina Pedricto.

Ainda de acordo com o professor, o modelo de mercado globalizado que floresceu nos últimos anos revelou as empresas como as principais forças inovadoras de um país. “Porém, essas inovações são decorrentes de um mercado consumista, nem sempre foram impulsionadas pela existência da tecnologia sendo que, algumas vezes, as mudanças foram resultados de meras adaptações ou de um rompimento”, diz.

Para Pedricto Rocha, um produto só existe porque há um mercado, atende a uma necessidade específica e é adequado às bases culturais. “Esse fenômeno histórico acompanhou toda a evolução da humanidade. O desenvolvimento de um país observa todos os aspectos acima citados e promove a Ciência e a Tecnologia nesse contexto”, observa.

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Pedricto Rocha, professor do Departamento de Engenharia Civil da PUC do Rio de Janeiro.

Várias são as áreas para se investir em SP, muitas delas caracterizadas por uma longa cadeia de produção. Estaleiros, petrolíferas, infraestrutura urbana, saúde, entre outras, estão na lista. Mas não se restringe apenas a isso. “Nesse ponto, destaco particularmente a utilização cada vez mais intensa das tecnologias digitais de informação e comunicação como ferramental didático e de inclusão social, expandindo o conhecimento e dinamizando o ensino”, avalia o professor da PUC.

Se por um lado o mercado do SP ainda precisa evoluir para se destacar no cenário da TI brasileira, por outro o produto já tem sido amplamente alvo de pesquisa para os seus mais diversos tipos de desenvolvimento.

Para o gerente da Incubadora de Empresas e do Núcleo de Inovação Tecnológica do LNCC/ MCTI, Flavio Toledo, a inovação é a mola mestra do trabalho que é realizado no laboratório. “Trabalhamos como incubadoras de empresas e, em parceria com a indústria e as empresas, desenvolvemos software que usa o Big Data, tecnologia muito atual usada para solucionar problemas que envolvam grandes mapas de dados”, diz.

Flávio Toledo, gerente do LNCC/MCTI

Para Flávio Toledo, o apoio ao desenvolvimento de políticas públicas para desenvolver sistemas inovadores ainda passa por algumas barreiras, mesmo destacando a sua expansão. “Uma delas é que, para se aplicarem recursos recebidos e que precisam ser aprovados pela Lei da Inovação, onde se encaixam muitos de nossos projetos, existe uma burocracia. Deveria existir uma maneira mais eficaz para que essas parcerias acontecessem mais rapidamente”, comenta.

Flavio Toledo diz ainda que “um grande começo seria que os próprios órgãos envolvidos tivessem um maior entendimento de como funciona a Lei da Inovação, de como ela pode ser útil para todos, já que possibilita que servidores públicos trabalhem em parceria com o setor privado, conferindo uma maior geração de patente e registro de software. Sem dúvida, esse ciclo só gera resultados e desenvolvimento tecnológico para o país. Para isso deslanchar, alguns agentes jurídicos poderiam ser revisados”.

Vale destacar que a LNCC está, atualmente, desenvolvendo um SP de apoio para as Olimpíadas 2016, que serão sediadas no Rio de Janeiro, outro de modelagem molecular e um de novos fármacos, que engloba a área de nanotecnologia.

Cada projeto de desenvolvimento de SP dura entre seis meses a três anos. “São projetos complexos, e muitas empresas de pequeno e médio porte têm essa postura de resistência, pois as condições de acesso ao crédito são difíceis. Mesmo assim, é válido investir nesse ramo. Muitas áreas vão demandar projetos inovadores de SP como o setor de óleo e gás, pela questão do Pré Sal, além das áreas de energia e de fármacos. São áreas desafiadoras e que estimulam os projetos de processos desse tipo”, completa.

As universidades também garantem o seu lugar no desenvolvimento do SP. A PUC do Rio de Janeiro, por exemplo, vem investindo intensamente no desenvolvimento de sistemas de informação como ferramental didático e pacotes de software técnicos.

Segundo Pedricto Rocha, tratam-se de aplicações específicas para a resolução de problemas de engenharia. Leia abaixo os sistemas que a universidade tem desenvolvido:

No primeiro grupo, o destaque é o Sistema Maxwell, desenvolvido a partir de 1995 e que atualmente está na versão 4, é acessível a cegos e deficientes visuais e possui interfaces em português e inglês. “O Maxwell possui duas características fundamentais.

– A primeira é que ele é um Repositório Institucional (IR – Institutional Repository), ou seja, um sistema capaz de fazer a gestão da produção acadêmica da instituição para todos os tipos de conteúdos que são realizados em formatos digitais – teses e dissertações em texto completo e online; trabalhos de conclusão de graduação; monografias de especialização; materiais educacionais interativos; entre outros.

– A segunda é que ele é aderente aos padrões nacionais e internacionais de descrição dos conteúdos digitais e de suas formas de intercâmbio de dados”, explica.

Em uma área distinta, porém complementar, Pedricto Rocha cita os pacotes de software desenvolvidos pelo Tecgraf, fundado em 1987, pelo Professor Marcelo Gattass, como um laboratório do Departamento de Informática, que se tornou um Instituto da PUC-Rio em 2012.

Ao longo destes anos, em parceria com a Petrobras, o Tecgraf já desenvolveu mais de 60 produtos de software inovadores nas áreas de Geofísica, Geologia, Reservatórios, Meio Ambiente, Engenharia e Logística e que, hoje, são amplamente utilizados em diversos setores de pesquisa, projeto e produção. “Também no Instituto Tecgraf, o Professor Luiz Fernando Martha vem trabalhando ativamente no desenvolvimento de pacotes de software com interface gráfica ativa para o ensino de engenharia, dentre os quais cabe citar:

Two-dimensional Frame Analysis Tool- Utilizado atualmente como ferramenta educacional em praticamente todos os cursos de engenharia civil e arquitetura do país.

Cross Educational Tool-Programa educacional disponibilizado através da Internet, para ensino do Processo de Cross para o cálculo de vigas contínuas.

Mtool–Two-dimensional Mesh Generation Tool-Gerador genérico de modelos de elementos finitos bidimensionais, desenvolvido em convênio com a Petrobras, que permite o uso acadêmico do programa.

FEMOOP–Finite Element Method Object Oriented Program-Programa para análise pelo método dos elementos finitos, utilizando programação orientada a objetos, extensível para diversos tipos de modelos e análises em engenharia.

QUEBRA2D–Fracture Adaptive Two-dimensional Mesh Simulation Tool-Programa para a simulação de fraturamento adaptativa para modelos bidimensionais de elementos finitos, desenvolvido em parceria com o Laboratório de Mecânica Computacional (LMC) da EPUSP.

e-/Mohr – Mohr’s Circle Educational Tool.Programa educacional disponibilizado através da Internet, para ensino do Círculo de Mohr para cálculo de estado de tensões planas.

Na área de gestão pública, Pedricto Rocha cita as iniciativas do Núcleo de Assistência Técnica às Prefeituras (NAT/PUC-Rio), vinculado ao Departamento de Engenharia Civil, sob coordenação dele.

“O NAT é um núcleo interdisciplinar, que articula especialistas e técnicos de diversos departamentos da universidade, e tem como missão promover o desenvolvimento institucional de administrações públicas com ênfase nos processos de Gestão Físico-Territorial Ambiental, o desenvolvimento do conceito de municipalidade e a definição de políticas para o desenvolvimento sustentável e expansão urbana ordenada”, observa o professor.

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As ações do NAT/PUC-RIO são caracterizadas pelo uso intensivo das tecnologias de geoprocessamento e sensoriamento remoto, incluindo a criação de bases geográficas corporativas, aquisição de imagens áreas ou orbitais e desenvolvimento de sistemas de informação geográficos para apoiar processos operacionais e estratégicos.

De acordo com, Pedricto Rocha, os primeiros sistemas desenvolvidos pelo NAT, no início da década passada, eram sistemas desktop, muito dependentes da infraestrutura computacional física disponível pelas administrações municipais e da capacidade de manutenção daquela infraestrutura. “Num esforço para diminuir tal dependência, e acompanhando a popularização do uso da Internet, o NAT passou a investir no desenvolvimento de serviços web, inicialmente baseados em servidores físicos, mas diminuíam consideravelmente o esforço de implantação e manutenção da infraestrutura computacional necessária”, explica.

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Educação é a chave para o desenvolvimento do SP e de uma mão de obra qualificada

Segundo um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a falta de pessoas com domínio de ambientes de desenvolvimento de linguagens é o principal problema enfrentado pelas companhias do segmento com pelo menos 20 funcionários. Ou seja, a área de TI brasileira, mais precisamente do SP, sofre com esse problema.

Para que o futuro seja diferente, Flavio Toledo defende que o tema seja ensinado desde cedo nas escolas. “É fato que a questão da mão de obra representa um gargalo na Ciência da Computação. E é claro que, se o aluno tem contato com esse tema desde cedo e com determinados conteúdos, fica muito mais fácil depois. Já existem diversas iniciativas no ensino médio, mas ainda não é o suficiente. Vale destacar que os profissionais de CC, quanto mais demoram a ter contato, mais dificultam o processo posteriormente”, valida.

A prova de que o ensino começa a mudar no setor de TI foi um evento da USP realizado em abril deste ano, com 240 alunos do primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Álvaro Guião, de São Carlos, que tiveram uma aula diferente: os professores foram sete colegas que cursam o segundo ano do ensino médio na escola.

Eles mostraram os resultados de três projetos de pré-iniciação científica que estão desenvolvendo desde abril do ano passado, sob a orientação de docentes do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

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Trabalhando com o objetivo de transformar ideias em programas de computador, os estudantes participaram de uma iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP para apoiar projetos de pesquisa que possibilitem despertar o interesse pela ciência em alunos da rede pública de ensino.

O programa de Pré-Iniciação Científica da Universidade oferece uma oportunidade para que esses estudantes complementem sua formação pessoal, aprimorem conhecimentos e se preparem para a vida profissional por meio da convivência com os procedimentos e as metodologias empregadas na pesquisa científica.

No caso dos três projetos realizados pelos sete alunos da Álvaro Guião, eles foram orientados por um grupo de professores coordenado por Seiji Isotani, do ICMC.

O objetivo era desenvolver o pensamento computacional por meio da utilização do programa Scratch . “Os estudantes utilizaram o programa para realizar pequenas atividades de programação visual. Assim, puderam se apropriar de conhecimentos de computação e de inovação tecnológica, que poderão ser úteis para motivá-los a seguir uma carreira na área de ciências exatas”, ressaltou Seiji Isotani.

Para Roseli Romero, coordenadora do programa de Pré-Iniciação Científica no ICMC e presidente da Comissão de Pesquisa do Instituto, conhecimentos adquiridos podem motivar alunos a seguir carreira na área. “Muitos dos alunos do ensino médio, principalmente do ensino público, pensam que a USP é uma realidade distante de suas vidas. Esse projeto mostra que isso não é verdade. É uma forma de captar novos talentos e incentivá-los a entrar na área de computação”, explica a professora.