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Pint of Science

Evento estreia no Brasil e traz crítica de Seiji Isotani sobre professor lutar contra a tecnologia na sala de aula

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“Não adianta o professor lutar contra a tecnologia em sala de aula, pois isso, de alguma forma, irá atrapalhar o aprendizado”.

A frase do professor Seiji Isotani, normalmente ouvida nas salas de aula do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, ecoou em um ambiente diferente no recente encontro promovido pela Universidade. Desta vez, ele falava para uma plateia sentada nas mesas de um restaurante, em frente à praça XV de Novembro, em São Carlos. Todos ali estavam ávidos por saber como a tecnologia pode facilitar o processo de ensino e aprendizagem.

Ao mesmo tempo, a menos de um quilômetro dali, o professor do ICMC, Francisco José Monaco, explicava para outra plateia – também sentada nas mesas de um restaurante – por que o pão francês pode ser considerado um produto do conhecimento livre. “A receita do pão francês está disponível livremente para todos nós. Não precisaríamos ir à padaria para comprá-lo, mas nós vamos porque, se fizéssemos pão em nossas casas, não sobraria tempo para as outras coisas que temos que resolver”, explicou o professor.

Essas duas cenas marcaram a estreia do Pint of Science no Brasil, tornando São Carlos a primeira cidade da América Latina a participar do festival de divulgação científica que mobilizou mais de 50 cidades espalhadas por oito países. Durante o evento, cientistas de várias partes do mundo saíram de seus laboratórios para mostrar o que estão pesquisando e qual o impacto disso na vida das pessoas.

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Seiji Isotani participa do evento. Foto: Reinaldo Mizutani – Assessoria de Comunicação ICMC/USP

Para Isotani, quando o assunto é tecnologia na educação, o professor atrapalha o processo de aprendizagem quando luta contra a tecnologia em sala de aula: o aluno poderá acessar o conteúdo disponível na internet de uma maneira ilegal ou, se optar por não acessá-lo, provavelmente ficará disperso durante a aula. “Muitos dos problemas que vemos hoje na educação acontecem porque os professores não abraçaram a tecnologia. Precisamos integrar tecnologia e educação. O professor precisa aprender a utilizar as ferramentas tecnológicas a seu favor”, argumenta Isotani.

Entre os convidados para o debate estava a coordenadora de projetos do Instituto de Estudos Avançados (IEA) Polo São Carlos, Yvonne Mascarenhas. Para ela, a curiosidade das crianças e jovens é uma vantagem que os educadores devem valorizar: “Se mostrarmos a eles que existe um mundo de coisas interessantes a ser explorado por meio da tecnologia, eles poderão se divertir e aprender”.

Já o professor do ICMC, Edson Moreira, explicou como tem usado as redes sociais em sala de aula para aumentar o interesse dos alunos e diminuir a distância entre professores e estudantes. “Utilizar as redes sociais para criar um espaço de discussão sobre conteúdos extracurriculares pode ser muito interessante”, ressaltou.

Ele citou, como exemplo, os grupos fechados no Facebook que cria para promover a troca de informações por meio de enquetes ou postagens de notícias. “Percebemos que os alunos mais ativos nas redes sociais não são os mais ativos em sala de aula. Ou seja, essa é uma ferramenta muito útil para os mais tímidos e possibilita que os estudantes se conheçam”.

O psicólogo Leonardo Marques completou o debate mostrando como os jogos podem ser úteis para promover o engajamento dos estudantes. Ele também abordou a relevância de adaptar as ferramentas de ensino ao perfil de cada aluno.

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Yvonne, Leonardo, Seiji e Edson: múltiplas perspectivas sobre o uso da tecnologia na educação. Foto: Reinaldo Mizutani – Assessoria de Comunicação ICMC/USP

Objetivo do evento é promover debates sobre ciência em ambientes descontraídos como restaurante e bares

O inusitado exemplo de sucesso de conhecimento livre, o pão francês, chamou a atenção do público que acompanhava o debate coordenado pelo professor Monaco. Ele focou sua apresentação em uma das possibilidades do conhecimento sem proprietário: o software livre.

Segundo o professor, para um software ser assim classificado, é preciso existir liberdade para utilizá-lo, modificá-lo e distribui-lo. “O software nasceu livre, em um modelo de gestão de conhecimento baseado no valor da geração do conhecimento. Depois, passamos a ter o software proprietário, em que o modelo é diferente: baseado no valor do comércio”, contou.

Entre os vários convidados para a mesa de debate estavam desenvolvedores de software livre, pesquisadores e estudantes. “A inclusão digital passa pelo software livre”, defendeu Priscila Gutierres, que está cursando Matemática Aplicada e Computação Científica no ICMC. Ela explicou que a vantagem da utilização do software livre na educação não se restringe a sua gratuidade: “Ao usar um software livre, os estudantes podem modificá-lo e participar de comunidades e fóruns que apóiam a utilização dessa ferramenta. Assim, eles passam a ter acesso a um conhecimento que não possuiriam caso comprassem um software em que ninguém pode mexer”, finalizou.

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Edson Moreira participa da estreia do evento. Foto: Reinaldo Mizutani – Assessoria de Comunicação ICMC/USP

No Brasil, o Pint of Science foi realizado pelo ICMC e contou com o apoio dos restaurantes Mosaico e Espaço Sete, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), do Núcleo de Apoio ao Software Livre (NAPSoL) e do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP.