Entrevista

Acadêmicos em entrevista exclusiva para a TI Maior

Raad Qassim, professor da UFRJ, e Paulo Masiero, da USP, discutem os ramos do Software Profissional no Brasil e falam sobre o cenário do setor e suas perspectivas

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Raad Qassim é professor titular da COPPE e atua na Área de Logística e Transportes Aquaviários do Programa de Engenharia Naval e Oceânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Paulo Masiero é Mestre em Ciências da Computação e Matemática Computacional pelo Instituto de Ciências Matemáticas de São Carlos, da Universidade de São Paulo – USP e Doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade.

Com formações distintas, os acadêmicos falaram, em entrevista exclusiva para a revista TI Maior, sobre o desenvolvimento do setor de software profissional no Brasil, além de como as empresas e a Academia podem se unir em benefício desta área. Confira:

Considerando o Software Profissional – SP como aquelas aplicações baseadas no conhecimento técnico das ciências em geral como, engenharias, biomédicas, economia e psicologia, como analisam o seu estágio atual de desenvolvimento no Brasil?

RAAD QASSIM – Acho que tem pouco Software Profissional no Brasil, isso se considerarmos as necessidades prementes. Há necessidade e espaço para muito desenvolvimento neste segmento de software.

PAULO MASIERO – O Software Profissional é usado por profissionais de diferentes áreas técnicas e nas empresas são usados pelos chamados knowledge workers (trabalhadores do conhecimento, em tradução livre). Eles são profissionais tipicamente no nível de gerência intermediária, como cientistas, engenheiros ou arquitetos, que fazem o design de produtos ou serviços e criam novos conhecimentos para a empresa.

Software desse tipo são produzidos por diferentes empresas, normalmente por inspiração de profissionais experientes e talentosos que percebem formas inovadoras de usar os computadores e software para apoiar seu trabalho. Como exemplo, tem o software para projeto apoiado por computador (CAD), e sistemas para simulação, visualização e realidade virtual. O Brasil tem acompanhado essa evolução e tem absorvido essas tecnologias.

Raad Qassim, professor titular da COPPE

Qual o papel da Academia e sua integração com as empresas nacionais na transformação de ciência em tecnologia, em especial na produção de SP?

RAAD QASSIM – O papel da Academia é formar parcerias com empresas nacionais dos respectivos ramos: engenharia, medicina, entre outros.

PAULO MASIERO – As universidades que produzem pesquisa e também outras universidades de bom nível estão cada vez mais sendo incentivadas e, porque não dizer, até mesmo pressionadas, a colaborar com empresas. Há também muita colaboração nas universidades entre pesquisadores da área de ciências de computação com outras áreas do conhecimento, como biologia, saúde, engenharias, química e física.

De acordo com a opinião e experiência de cada, o que sugerem para que o país produza SP competindo com outros atores internacionais: temos competência acadêmica para isso; qual o papel do governo e suas agências de fomento; nossas empresas estão preparadas?

RAAD QASSIM – As respostas para todas essas perguntas são sim. O essencial é definir bem o papel da Academia e das empresas no desenvolvimento de SP.

PAULO MASIERO – Devem ser buscadas mais parcerias da Academia com as empresas e associações profissionais, entre pesquisadores de áreas diferentes. O papel do governo e suas agências é fomentar essas cooperações, apoiando projetos de boa qualidade. A minha impressão é que falta a muitas empresas brasileiras interesse em produzir novos conhecimentos e tecnologias.

Quais as principais áreas de atuação onde o SP poderia ser competitivo no país?

RAAD QASSIM – O agronegócio brasileiro é um dos segmentos mais competitivos no mercado internacional. Este setor pode ser ainda mais competitivo, por exemplo no caso de soja, se a logística fosse otimizada. Há uma grande lacuna no SP na área de otimização de logística de agronegócio, que deve ser preenchida com o desenvolvimento de SP para este setor.

PAULO MASIERO – Há muitas áreas interessantes e o avanço depende das expertises existentes em cada região e das necessidades do país. Há muito potencial no desenvolvimento de software na área de saúde, por exemplo. Na USP, temos também vários grupos trabalhando em projetos na área robótica, em processamento de linguagem natural, em software para visualização e simulação de fluidos (com aplicação em empresas como a Petrobras e a Unilever) e aplicações na área de óptica.

Em suas área específicas, o que se tem feito com relação ao SP?

RAAD QASSIM – Em geral, o custo de desenvolvimento de SP de logística de agronegócio, onde atuo, reside na mão de obra qualificada. Para uma empresa de agronegócio, otimizar sua logística implicaria no aumento da sua competitividade pela redução de custo e de tempo de entrega de produtos ao destino final, tanto no Brasil como no exterior. Para o poder público, otimizar investimentos na infraestrutura logística implicaria no aumento de competitividade de agronegócio brasileiro como um todo, resultando no aumento de contribuição do agronegócio ao PIB nacional.

PAULO MASIERO – Eu trabalho na área de engenharia de software, e temos desenvolvido ferramentas para aumentar a produtividade dos engenheiros de software e a qualidade dos sistemas que produzem.

Paulo Masiero é Mestre em Ciências da Computação e Matemática Computacional pelo Instituto de Ciências Matemáticas de São Carlos – USP

Qual poderia ser o papel das grandes empresas do Estado, a exemplo da Petrobras, na alavancagem do SP no país?

RAAD QASSIM – As grandes empresas têm um papel fundamental na alavancagem do SP no Brasil. De novo, a otimização de logística de agronegócio é um caso de destaque.

PAULO MASIERO – As grandes empresas deveriam incentivar mais o uso de SP por seus trabalhadores do conhecimento e também se envolver mais em de projetos de P&D nessa área em colaboração com a Academia.

Como veem o papel do ensino da Ciência da Computação, desde a mais tenra idade até uma reestruturação profunda nos parâmetros curriculares da universidade brasileira em suas áreas afins ao SP?

RAAD QASSIM – O SP tem duas partes: a técnica (engenharia, logística, medicina, entre outros), onde os módulos funcionais estão criados e a interface amigável e interativa é construído. A ciência de computação tem um papel nas duas partes. Na reestruturação dos currículos universitários, este fato tem que ser o ponto de partida.

PAULO MASIERO – O Brasil tem investido muito na criação de cursos de ciências de computação e de engenharia de computação, onde são formados muitos profissionais de bom nível, talvez não na quantidade de que o país ainda precisa. Os currículos são constantemente modificados para acompanhar a evolução da área.

Nanotecnologia, Indústria 4.0, Inteligência Artificial, Robotização, Internet das Coisas, Nuvens, Big Data são alguns dos novos bondes tecnológicos, com forte influência do SP, que determinarão o futuro das nações. Como veem o papel do Brasil nesse espectro?

RAAD QASSIM – Com certeza, vejo com muito gosto. Por exemplo, na minha área de atuação, logística, o papel de Big Data é fundamental, tendo em vista o volume enorme de dados a nível operacional em tempo real nesta área.

PAULO MASIERO – Esses temas têm sido pesquisados e muitas inovações têm surgido nas universidades de ponta do país, muitas delas em colaboração com empresas.

Sobre os entrevistados:

RAAD QASSIM
Possui graduação (1966), Mestrado (1967) e Doutorado (1970) em Engenharia Química, University of London.

Atualmente é Professor Titular da COPPE e atua na Área de Logística e Transportes Aquaviários do Programa de Engenharia Naval e Oceânica da UFRJ. Tem experiência na área de Engenharia Mecânica, com ênfase em Processos de Fabricação e Seleção Econômica.

Há 18 anos leciona disciplinas relacionadas ao planejamento e controle da produção, logística e transporte aquaviário e gerenciamento de projetos, nos cursos de graduação, mestrado e doutorado da UFRJ.

Coordenou trabalhos de Planejamento e Controle da Produção na Transpetro (construção naval), na Eletronorte (despacho de energia elétrica), na Eletronuclear (dessalinização de água do mar) e outros projetos em Furnas, Promon, Petrobras, indústrias metal-mecânica e automobilística.

Com o apoio da FINEP, coordenou projetos de Logística Naval, Sistema de Planejamento e Controle da Produção e Reparo Naval, Sistema de Navegação Integrado. Realizou estudos sobre a utilização de energia de correntes de maré apoiado pela Vale Soluções Energética e Inter American Development Bank, IDB.

Coordenou projeto com o apoio FINEP/SEBRAE em gestão de risco de cadeia de suprimentos em estaleiros e otimização de formação de comboios de empurradores e balsas em águas fluviais na Amazônia em parceria com o GRUPO REICON. Com o apoio do CNPq, coordena projetos em otimização de custos em construção e logística naval e otimização de redes intermodais de transporte. No setor elétrico, coordena projeto de Desenvolvimento de Sistema de Otimização de Periodicidade de Inspeções em Sistemas de Transmissão de Energia Elétrica, com apoio da CHESF.

PAULO MASIERO
Mestre em Ciências da Computação e Matemática Computacional pelo Instituto de Ciências Matemáticas de São Carlos, da USP, em São Carlos, SP, (1979), Doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, USP (1984), na área de Métodos Quantitativos e Informática. Pós-Doutorados na University of Michigan (1985), USA, e Universidade Técnica da Dinamarca (1993). Professor Titular aposentado do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos (1977-2015).

É assessor ad hoc da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e de outras fundações de amparo à pesquisa.

Tem experiência nas áreas de Ciência da Computação e Sistemas de Informação, com ênfase em Engenharia de Software, atuando nos seguintes temas: teste estrutural de programas orientados a aspectos e reuso de software (frameworks OO, componentes, linguagens de padrões, linhas de produtos de software, geradores de aplicação, desenvolvimento baseado em modelos), análise e projeto de software e ética em computação.

Publicou dois livros e tem cerca de 180 artigos publicados em periódicos e conferências. Foi membro do Conselho Diretor e Diretor Financeiro da Sociedade Brasileira de Computação; membro da Comissão de Especialistas em Computação e Informática do MEC/SESU e membro da Comissão de Ciências de Computação da CAPES.

Foi Diretor do Centro de Informática de São Carlos, do Campus de São Carlos da USP; Diretor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação, da USP; Presidente da Comissão Central de Informática da USP e Coordenador de Tecnologia de Informação da USP.

Foi o criador e o coordenador nos quatro primeiros anos do Curso de Sistemas de Informação da Escola de Artes, Ciências de Humanidades, da USP na Zona Leste, em São Paulo, e Vice-diretor dessa escola de 2008 a 2009. Foi Coordenador de Pós-graduação do CPG em Ciências de Computação e Matemática Computacional do ICMC-USP.