Editorial 2

O que vem a ser o software profissional-SP e seus desafios no Brasil

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Márcio GirãoMárcio Girão
Presidente da Fenainfo


Há algum tempo, no evento Rioinfo, ao final da palestra sobre as oportunidades para as empresas de TI, proferida pelo Geólogo Guilherme Estrella, então Diretor de Exploração e Produção da Petrobras, um empresário na plateia pediu a palavra e fez uma comovida homenagem ao palestrante.

Após anos de tentativas frustradas para convencer os escalões técnicos da Petrobras de que sua tecnologia tinha valor para a empresa, finalmente, conseguiu uma entrevista com este Diretor que, imediatamente, acolheu seus argumentos e determinou uma análise mais aprofundada. O resultado foi um contrato bem-sucedido para ambas as partes e, a partir daí, o deslanchar do produto de software em várias outras empresas multinacionais do setor.

O empresário era Duperron Ribeiro que, não por coincidência, participa de outra matéria deste número da TI Maior. Professor de engenharia na UFRJ, porém com decisiva veia empreendedora (muito poucos a têm), aproveitou uma oportunidade de aplicação de seus conhecimentos numa empresa e criou um negócio de tecnologia: desenvolveu um SOFTWARE PROFISSIONAL.


O SP é isso: a aliança de conhecimentos especializados de pessoas e equipes, na academia e nas empresas, com as ferramentas da ciência da computação para resolver problemas técnicos.

O SP ajuda a pôr um foguete no espaço, dirigir um avião ou um automóvel, a funcionar um celular, o robot a soldar uma peça, a projetar um órgão artificial, a sequenciar o genoma humano e, futuramente, a pensar como a gente.


Um dia, como previu o cientista John von Neumann, atingiremos a singularidade quando a tecnologia nos superará como humanos. As consequências são imprevisíveis, mas é certo que o SP estará por trás disso tudo. A esse respeito, a seção Intervalo, mais adiante, mostra os desafios da Inteligência Artificial.

Pode-se afirmar que uma importante condição necessária para se deter a soberania tecnológica de um país é a sua capacidade instalada no desenvolvimento de SP. Duas expressões sobressaem nessa frase: soberania e capacidade instalada.


Soberania

É conhecido o caso da Embraer, que em 2006 foi proibida pelo governo norte-americano de vender 12 aviões militares à Venezuela, negócio de quase meio bilhão de dólares. A aviônica (de avion eletronic), ou seja, os artefatos eletrônicos e o software que controlavam os aviões não eram produtos brasileiros, e houve ameaça de cortar o seu futuro fornecimento o que inviabilizaria a empresa.

Para desenvolver seus projetos, a Embraer precisa de certas aplicações de SP, por exemplo: CAD (Computer Aided Design para os desenhos industriais em 3D); CAE (Computer Aided Engineering para os cálculos estruturais e aerodinâmicos); CAM (Computer Aided Manufaturing para manufatura em máquinas de controle numérico); PLM (Product Lifecycle Management para controle dos processos de engenharia e sua documentação) e assim por diante, todos importados e sem similares nacionais competitivos e de altíssimo custo de aquisição.

Para aqueles que pensam ser esta empresa um orgulho da tecnologia nacional, é um balde água fria sabermos que seus insumos tecnológicos mais sofisticados são importados e cuja dependência põe em risco a própria existência da empresa e de seus negócios.

Situações similares ocorrem em muitas empresas brasileiras estratégicas ao país, bem como em outros setores de tecnologia, altamente dependentes e codificados em artefatos eletrônicos e SP. Exemplos: biotecnologia, mecatrônica, criptoanálise, segurança da informação, robótica etc.


Capacidade Instalada

Aqui reside a principal questão a ser abordada para termos um futuro soberano em tecnologia, gerador de enorme riqueza e, no mínimo, forte item na balança das importações e transferência de royalties ao exterior.

Capacitação, temos de sobra em nossas universidades e institutos de ciência e tecnologia, a exemplo dos dois professores entrevistados nesse número da TI Maior.

Todos os produtos de SP citados acima, são passíveis de serem desenvolvidos no país sem significativos problemas tecnológicos a resolver. Alguns chegam a ser triviais, dado o nível de conhecimento atual em nossas instituições acadêmicas e de pesquisa; outros até já existem, porém, sem a musculatura essencial para competir com os líderes de mercado.

Capacidade instalada significa aqui transformar essa capacitação em uma base de negócio, tendo na tecnologia o seu fator capital de competitividade. Isto não é fácil e exige um conjunto articulado de competências, integração entre seus atores, demandas projetadas e, no início, garantidas, ou seja, um Projeto Nacional.

Certa vez, numa mesa de debate sobre tecnologia nacional no Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro, fiz uma apresentação na qual mostrava de um lado as equações de Maxwell (eletromagnetismo) e, do outro, figuras de satélites, celulares etc. resultantes dessas equações, e recitei Gullar: “traduzir-se uma parte na outra parte – que é uma questão de vida ou morte – será arte?”.

Como cobrara uma ação mais contundente da Academia nesse processo de transformação, fui severamente criticado pelo representante da UFRJ na ocasião, dizendo que tinham uma reserva de cerca de 2000 doutores à disposição do país. Bom, embora falte o principal: instalá-los.

Afinal, apenas 3% dos doutores em atividade no país trabalham em pesquisa no ambiente empresarial.


Nosso futuro

A revista TI Maior deste mês mostra a importância dessa questão do Software Profissional ao futuro do Brasil e de como estamos longe de onde deveríamos estar para pensarmos num país gerador de riquezas a partir da inteligência de seu povo e de sua soberania em geral, já que dependente da propriedade de insumos tecnológicos entre os quais o SP.

Quando se fala de um Projeto Nacional, não constitui mera retórica, pois os países mais desenvolvidos o fizeram e ainda o fazem. Ele envolve questões já sabidas e exauridas em discussões, mas ainda não transformadas em resultados concretos, tais como:

– Valorização e ensino da Ciência da Computação desde tenra idade de nossas crianças;

– Reformulação dos parâmetros curriculares em todos os níveis escolares respeitando a ciência da computação como um dos pilares do conhecimento;

– Elevando o ensino da ciência e computação ao mesmo nível de complexidade das matérias essenciais às profissões;

– Mudança nos critérios de avaliação das carreiras acadêmicas valorando significativamente a contribuição dos pesquisadores na geração de produtos inovadores, inclusive junto às empresas nacionais;

– Mudança nos critérios de isenções fiscais e fomentos diversos exigindo o registro no país da propriedade intelectual dos produtos gerados com esses recursos;

– Ampliação drástica da eficiência no registro de patentes no INPI – Instituto Nacional de Propriedade Intelectual;

– Uso das agências de fomento para elaboração de projetos incentivados de desenvolvimento de SP alinhados com as necessidades das empresas brasileiras, cuja demanda garantiria o ressarcimento dos recursos tomados dessas agências.

– Tributação incentivada na aquisição de tecnologia nacional, mormente na substituição de importações.

– Uso das empresas do governo para demandas garantidas na utilização de SP produzidos no país.

– Marco regulatório adequado aos incentivos de um negócio de alto risco.

A FINEP e o BNDES, os dois principais fomentadores da tecnologia nacional, estão em boas mãos e contam com um corpo técnico de excelência; espera-se que participem ativamente em um projeto nesse sentido.