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Inovação, educação e fortalecimento tecnológico são a chave da competitividade para Brasil não mais depender de sistemas desenvolvidos no exterior

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Pedricto RochaPedricto Rocha


É certo que a adoção de programas integrados de desenvolvimento tecnológico leva à geração de riquezas. Não podemos, contudo, esquecer de distribuí-las. De acordo com dados da Unesco, 45% dos jovens e adolescentes brasileiros estão em famílias abaixo do nível da pobreza. Esse é um motivo mais do que relevante para que se promova uma longa, continuada e eficaz política de desenvolvimento tecnológico adequada às nossas características.

O que temos visto hoje, com frequência, é a adoção de tecnologias estrangeiras em detrimento das nacionais, com reflexos na criação e no desenvolvimento tecnológico necessário à indústria local. Técnicas similares, nem sempre melhores, desenvolvidas em outros países, são importadas e aplicadas no Brasil. É uma prática que compromete nosso futuro, já que nenhum programa de desenvolvimento tecnológico será sustentável sem a identidade cultural do próprio país.

Fortalecer o desenvolvimento regional é questão estratégica para uma nação com uma imensa área territorial.

Nesse sentido, as economias e o “ESTADO” precisam ser reformados para se adaptarem aos novos tempos, onde a inovação tecnológica é a chave da competitividade.

No passado, os resultados de uma boa pesquisa acadêmica, transferidos para a indústria e geradores de bens para a sociedade, eram conseqüência natural da difusão do conhecimento.

Esse fato é tão verdade que ainda hoje o indicador do nível de desenvolvimento tecnológico alcançado pelos países é determinado por um índice denominado TAI (Technological Achievement Index), do PNUD, que considera a disponibilidade de meios de difusão tecnológica, antigos e modernos, disponíveis em cada um dos Estados, bem como o percentual de alunos de Engenharia e de outras áreas técnicas no total de estudantes do Terceiro Grau.

Verifica-se, também, uma tendência claramente econômica ao se observar que todos os indicadores de avaliação do desenvolvimento científico e tecnológico, utilizados nacional e internacionalmente, têm origem em manuais produzidos pela OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico) e, portanto, com viés econômico.

O fim da década de 90, no entanto, determinou uma maior atenção aos aspectos sociais, resultado das conclusões dos levantamentos anuais, que deixavam evidente a péssima distribuição de renda gerada por esse processo. O Brasil não foi exceção. Embora tendo considerável desenvolvimento econômico, situava-se junto aos países mais pobres em indicadores sociais.

Desse fato, adveio a decisão, em 2000, de adotar um conjunto de objetivos, denominados Metas do Milênio, que visam reduzir até 2015 os problemas sociais existentes.

Esse desequilíbrio não é fácil de ser eliminado, ou mesmo consideravelmente reduzido, uma vez que, nesse mesmo período, os efeitos dos mercados globalizados mostraram uma clara tendência à concentração de renda: os ricos tendendo a ficar mais ricos, os emergentes sofrendo com o endividamento e com restrições de largo espectro, enquanto os excluídos permanecem sem ver soluções efetivas para os problemas crônicos que os afligem.

No caso do Brasil, o desenvolvimento científico situa-se mais próximo dos indicadores internacionais do que o desenvolvimento tecnológico, capaz de produzir uma maior distribuição de renda e reduzir as assimetrias internacionais pendentes há muitos anos.

Em outras palavras, a questão é saber se é possível a um país de industrialização tardia, como o nosso, construir uma inserção autônoma no atual mundo globalizado.

A boa pesquisa, portanto, deveria também focar resultados práticos, de aspecto social, que possibilitassem não só a manutenção e a criação de novos postos de trabalho, mas também o acesso a melhores condições alimentares, à energia, a condições sanitárias e de saúde pública adequadas, à elevação do nível educacional profissional da mão de obra e a soluções que conjuguem desenvolvimento e questão ambiental. Essa base social deve vir em conjunto com atenção às metas tecnológicas que ampliem o poder do Estado.

Apesar do significativo avanço na última década, ainda continuamos com uma forte dependência na utilização de software desenvolvido no exterior. Isto, como um resultado da nossa defasagem tecnológica e que em muito contribui para o nosso déficit da balança comercial.

Pedricto Rocha possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia (1971), mestrado em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1973), mestrado em Soil Mechanics – University of London (1976) e doutorado em Civil Engineering – University of London (1979). Atualmente é professor associado da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em Geotécnica, atuando principalmente nos seguintes temas: estacas, barragem, enrocamento, instrumentação e fundações.