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A nova relação de trabalho e as possíveis cidades sustentáveis dos aplicativos de táxi e de motoristas exclusivos

Brasil vive bom momento para startups do segmento e aproveita para faturar em cima do maior problema de serviços do país: a logística

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O setor de tecnologia passa por um momento de transformação contínuo, principalmente em relação ao modelo de contratação de trabalho. Com o objetivo tanto de diminuir os custos quanto para aumento do controle, o capital tem continuamente atacado o processo de trabalho em sua essência, com o objetivo de modificar e até reconstruir todos os modelos pré-existentes, desde o conteúdo e o sequenciamento de tarefas específicas até a divisão técnica do trabalho dentro das empresas/indústrias e a locação dos processos de produção.

Iniciado durante os anos 1970, um novo e mais amplo ciclo de inovações em torno de redes e outras ferramentas de TI permitiu que o capital interviesse no processo de trabalho num alcance sem precedentes, o qual englobava um número crescente de postos de trabalho no processamento da informação. Deixando explícito, agregando e codificando o que era um conhecimento tácito dos trabalhadores e/ou gerando e coletando novas categorias de dados, os fornecedores corporativos e usuários de redes se esforçaram para padronizar mais as tarefas e quantificar saídas. Gestores ganharam uma nova liberdade para desagregar e reorganizar o trabalho, realocando ou terceirizando de acordo com suas estratégias. Companhias como a Uber invadiram segmentos já existentes, implementando recursos de redes de computação para compilar, codificar, rearranjar e terceirizar processos de trabalho.

No Brasil, a Uber vem crescendo dia a dia. E é justamente no calcanhar de Aquiles nacional que a startup americana tem crescido: o setor de logística no país. Dessa forma, a empresa está transformando a maneira como as pessoas se movimentam ao conectar, de forma simples, motoristas parceiros e usuários através de seu aplicativo.

“O principal objetivo é deixar as cidades mais acessíveis, oferecendo mais opções para usuários e oportunidades de negócios para motoristas parceiros. A ideia surgiu em 2009 quando Garett Camp e Travis Kalanick participavam da conferência LeWeb, na França. Após o evento, ao precisarem retornar para o hotel, encontraram dificuldade para pegar um táxi, transporte público ou até mesmo um motorista particular. Foi então que pensaram que seria incrível poder, através de um toque no celular, contratar o serviço de um motorista particular. O objetivo era facilitar e inovar a forma pela qual as pessoas se locomovem pelas cidades, inicialmente em São Francisco (EUA), utilizando-se de veículos sedã. Foi assim que surgiu o UberBLACK, primeiro produto da empresa”, diz uma porta-voz da assessoria de imprensa da companhia.

A Uber Technologies Inc. foi fundada oficialmente em junho de 2010

A Uber Technologies Inc. foi fundada oficialmente em junho de 2010, na cidade de São Francisco, e hoje está em mais de 342 cidades em mais de 61 países. No Brasil, o aplicativo chegou no mesmo ano da Copa do Mundo, em 2014, no Rio de Janeiro e, em seguida, em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. No país, está disponível o serviço UberBLACK, serviço de carro executivo sob demanda e o UberX, com preços mais baixos e carros compactos.

Em território nacional, a carioca Easy Taxi e a paulista 99Taxis dominam amplamente o mercado de aplicativos no país, concentrando 95% das chamadas. Além do porte, ambas são parecidas em vários aspectos — foram fundadas por três empreendedores, receberam aportes de fundos de investimento de risco, têm parcerias com grandes empresas para dar descontos aos passageiros e, na prática, suas ferramentas funcionam do mesmo jeito. Em ambos os casos, a maior parte dos recursos vem de fundos. Na Easy Taxi, foram aportados 170 milhões de reais de 2012 a 2014 de fundos que colocam dinheiro em negócios inovadores e com grande potencial de crescer, como o alemão Rocket Internet, o russo Phenomen Ventures e o iMena, dos Emirados Árabes Unidos.

No começo de fevereiro, a 99Taxis recebeu uma quantia superior a 5 milhões de reais do fundo americano Tiger Global Management, que detém participações em empresas como Netshoes, Decolar, Mercado Livre e B2W. Outros dois aportes vieram do brasileiro Monashees e do Qualcomm Ventures, dos Estados Unidos.

No começo de fevereiro, a 99Taxis recebeu uma quantia superior a 5 milhões de reais

Quando os aplicativos de táxi começaram, a ideia é que o retorno financeiro viria de comissões, pagas pelos taxistas, sobre o valor das corridas. Portanto, boa parte não entendeu que, se o aplicativo trouxesse mais passageiros, a féria aumentaria, mesmo com esse desembolso.

Também não ajudou o fato de os outros aplicativos menores que estavam pipocando no mercado não cobrarem nada. Depois de mais de um ano pelejando para fazer a cabeça dos motoristas, a Easy Taxi desistiu da cobrança. A empresa foi a primeira a atrair um grande nome como parceiro. O Santander passou a subsidiar 50% do valor das corridas entre 20h e da noite e 6h, pagas com cartão de crédito do banco. Em novembro, a marca de uísque Johnnie Walker bancou 1 milhão de quilômetros para os usuários do 99Taxis numa campanha ao estilo “se beber, não dirija”. O investimento foi de 4 milhões de reais.

Dennis Wang, co-CEO da Easy Taxi

Segundo Dennis Wang, co-CEO da Easy Taxi, aplicativo nacional, mais baixado do segmento e presente em mais de 30 países, o Brasil não deve ficar para trás em relação à tecnologia desenvolvida aqui e exportada. “O país tem ótimos aplicativos e está, a cada dia, exportando tecnologia para outros países. Tenho certeza de que, em breve, blockbusters internacionais sairão do Brasil. Esperamos que, com a Easy Taxi, muitos empreendedores se inspirem para pensar em um produto global, e não apenas para o mercado nacional”, diz.

Com a estratégia de proporcionar “as melhores experiências para os usuários, com conforto, rapidez e segurança”, a Easy Taxi aposta em uma equipe comprometida e que desenvolve, diariamente, muitas ideias criativas para aprimorar a prestação de serviços. “Para isso, contamos com a inteligência de engenheiros, consultores, bancários e especialistas em marketing. E, o mais importante, sempre passamos uma proposta de valor clara do nosso produto para o público”, completa Dennis Wang.

Já sobre a briga entre aplicativos e taxistas, que coloca em xeque principalmente a questão do serviço oferecido pelos taxistas tradicionais e os impostos que pagam, a resposta está na ponta da língua do executivo. “Ser uma maneira mais rápida, prática e segura de conseguir um táxi sempre foi o objetivo da Easy Taxi. Por isso, trabalhamos diariamente para conscientizar os taxistas de que eles devem prestar um serviço melhor sempre, isso independe de quem está no mercado. Por exemplo, temos há mais de um ano a ferramenta de avaliação da corrida que nos ajuda a passar feedbacks ou até mesmo bloquear maus profissionais. Além disso, desde 2014 contamos com pagamento in-app, feito diretamente pelo aplicativo. Fomos os primeiros a trazer a tecnologia pro Brasil”, explica.

E, o que muitos não sabem, é que a corrida de rua continua a ser o principal concorrente dos aplicativos. “Ainda temos que criar o hábito de muitas pessoas pedirem táxi pelo aplicativo. No Brasil, somente 15% das corridas de táxis são feitas via app. Esse mercado ainda tem muito pra crescer e é nisso que apostamos”, adianta Dennis Wang.

Startups brasileiras saem ganhando pela criatividade e inovação, diz porta-voz da Easy Taxi

Para Dennis Wang, o Brasil pode – e deve – conquistar ainda mais espaço no setor. “É um país com grandes empreendedores e muita criatividade. Além de criar negócios próprios, trazemos ideias de fora com o objetivo de torná-las melhores. Para evoluir, é preciso melhorarmos o ecossistema de startups, especialmente a indústria de investimento para o setor, que conta com fundos limitados para seed money. Talento nós temos – temos ótimos empreendedores e engenheiros. Recentemente, trouxemos um profissional com mais de 15 anos de experiência no Vale do Silício. Ele disse que os nossos desenvolvedores são tão bons quanto os de fora”, afirma o executivo.

Debis Wang diz que a Easy Taxi vai crescer ainda mais

Recentemente, a Easy Taxi se fundiu com a Tappsi, app de táxi da Colômbia, e pretende expandir cada vez mais nossos negócios na América Latina. “Minha dica para outros empresários é: definir a estratégia que será usada nos próximos meses. Além disso, é importante pensar, também, como captar recursos e gerir pessoas. Uma grande parte da atuação do CEO é resolver problemas. E o mais importante nisso tudo é não deixar faltar resoluções com pessoas, cultura e capital”, ensina.

E as perspectivas para este ano são boas, apesar da crise instaurada: Dennis Wang acredita que as startups brasileiras vão ganhar destaque no mercado internacional, principalmente as que se preocupam em trazer inovações pertinentes para o mercado corporativo e que possam ajudar e melhorar a experiência do cliente. “Além de empresas de 020 (offline-to-online) como a Easy Taxi, esse ano veremos muitas notícias sobre o mercado de fintech, as startups financeiras. Elas estão crescendo e chamando atenção da geração mais conectada”.

E a discussão com o governo, deve um dia chegar a um denominador comum? Para ele, sim. “Sou otimista. Como podem ver nas notícias, as prefeituras têm mudado rapidamente para adequar as leis aos aplicativos de táxi. A única coisa que seria melhor é conseguirmos trabalhar no âmbito federal, e não municipal, facilitando as conversas”, conclui.

MARCO REGULATÓRIO DA UBER

A Uber é completamente legal de acordo com a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) – Lei Federal 12.587/12. Por ser uma plataforma inovadora, não existem leis que regulam as atividades da Uber. Falta de regulação não significa ilegalidade. As redes sociais, por exemplo, existem há muito tempo e só foram reguladas com o Marco Civil da Internet (2013). A Uber está conversando com os poderes Executivo e Legislativo nas cidades em que atua para tentar desenvolver a regulamentação mais adequada à realidade brasileira.

A Uber não é concorrência desleal. O modelo da Uber é diferente de todos os outros tipos de transporte que existem. Nossos motoristas parceiros fazem transporte privado e os motoristas de táxi fazem transporte público. Um motorista parceiro paga IPVA anualmente e o IPI na hora da compra, diferente de táxi, cujos alvarás são distribuídos gratuitamente pela prefeitura.

A Uber paga impostos. Somos uma empresa legalmente constituída no Brasil, com escritórios em todas as cidades em que operamos. E pagamos impostos, assim como os motoristas parceiros. Com uma regulamentação, as prefeituras poderão apontar qual o modelo de arrecadação que faz mais sentido para cada cidade.

A Uber apoia e quer que exista uma regulação para a economia colaborativa. Já existem 51 jurisdições nos Estados Unidos que aprovaram regulamentações que recepcionam modelos de negócios como o da Uber. Cidades como Londres e Singapura abraçam este modelo, Calcutá (Índia) criou uma regulação específica e Filipinas foi o primeiro país a regular em âmbito federal as empresas que oferecem soluções de mobilidade urbana compartilhada (ridesharing) e, recentemente a Cidade do México, que foi a primeira cidade da América Latina a regulamentar serviços como os da Uber.

CONHEÇA A LIDERANÇA DA UBER

Travis Kalanick | Cofundador e Chief Executive Officer
Thuan Pahn | Chief Technology Officer
Ryan Graves | Head of Global Operations
Salle Yoo | Conselho Geral

Benito Paret comenta mudança do universo do trabalho

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho registrou um aumento do déficit de empregos superior a 150% nos últimos 12 meses. Esta crise econômica anuncia que muitos dos postos de trabalho eliminados acabarão de vez, com aumento da automação na indústria e da mecanização na agricultura. Com a universalização da Internet, o e-business vai devorar ainda mais postos no comércio.

O Estado brasileiro começa a entender as profundas transformações que vêm ocorrendo no relacionamento do capital com o trabalho. A lei 12.551, de 12/12/2011, que mudou o artigo 6º da CLT, já representou um reconhecimento legal do teletrabalho. Estabeleceu que “não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de emprego”.

A História da Humanidade, de tempos em tempos, registra saltos que levam a mudanças na forma de produção, com a consequente reorganização do mundo do trabalho e exigência de novos contratos sociais.

O universo do trabalho mudou. Faz-se necessário flexibilizar as amarras que impedem a mobilidade profissional. A globalização impôs a produção sem fronteiras e instituiu a figura da mão de obra transnacional. O paradigma tecnológico alterou a forma de organização laboral. Profissionais interagem em formas cooperadas de trabalho remoto, redistribuindo entre si etapas da produção, de acordo com a especialização requerida.

O estabelecimento de novas relações, através das convenções coletivas firmadas entre os sindicatos laboral e patronal de cada categoria, permitiria consolidar as novas formas de relacionamento. Flexibilidades de horários, remuneração variável vinculada à produtividade, trabalho à distancia, participação nos lucros e outras características deste novo mundo são questões que deveriam ser delegadas às convenções e retiradas da CLT.

O argumento de que só o instituto da carteira assinada garante o financiamento da Previdência Social não resolve uma situação de fato. É preciso entender que o financiamento da Previdência não é um problema exclusivo do trabalhador e das empresas. É um problema da sociedade brasileira.
O momento exige um esforço de todos para encontrar os novos caminhos que a realidade impõe, sem que isto signifique precarizar as relações de trabalho, mas sim adaptá-la à moderna vida conectada.

Precisamos crescer e nos desenvolver, mas para isso, teremos que rever o nosso arcabouço jurídico laboral, com coragem e sem preconceitos. A classe política precisa demonstrar coragem para enfrentar as barreiras corporativas contra mudanças no arcabouço legal que rege as relações trabalhistas, resolvendo várias questões ainda pendentes.

Benito Paret, presidente do Sindicato das Empresas de Informática – TI Rio