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Tecnologias Assistivas em destaque

Brasil coleciona conquistas no setor e professor José Antonio Borges fala de barreiras enfrentadas por empresários e oportunidades

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“As tecnologias assistivas ainda precisam evoluir mas, no Brasil, estão em outro patamar”. A frase é do professor José Antonio Borges, que atua no Instituto Tércio Pacitti-Centro de Referência em Tecnologia Assistiva da UFRJ, onde desenvolveu e coordena diversos projetos, tais como DOSVOX, Braille Fácil, Motrix e TecnoAssist, além de cursos de formação continuada em Tecnologia Assistiva. Em entrevista à revista eletrônica TI Maior, ele fala sobre o que o Brasil oferece no segmento que atende pessoas com deficiência, e como as empresas podem se beneficiar de um setor que, mesmo novo por aqui, oferece oportunidades.

O início das tecnologias assistivas no Brasil

“Desde os anos 90, quando as tecnologias assistivas começaram a despontar no Brasil, houve um desenvolvimento notório e facilidades que antes não existiam. Foi neste período que produtos que facilitavam a vida dos deficientes como o DOSVOX, que permite que pessoas cegas utilizem um microcomputador comum (PC) para desempenhar uma série de tarefas, adquirindo assim um nível alto de independência no estudo e no trabalho, se tornaram populares”.

“Esse sistema foi lançado em 1993, pela UFRJ, quando começou a democratização do acesso das pessoas com deficiência visual ao computador. Já a partir de 1995, o Virtual Vision surgiu como uma solução definitiva para que pessoas com deficiência visual pudessem utilizar com autonomia o Windows e outros aplicativos, ampliando a entrada delas na internet”.

“Com todas essas iniciativas, o Brasil mostrou que se encontra num patamar diferenciado, e que não é impossível a tecnologia assistiva deslanchar no país através de distribuições gratuitas”.

O mercado da tecnologia assistiva no Brasil e suas possibilidades

“Para um mercado extremamente difícil, posso afirmar que, hoje, existe um horizonte. Diversos sistemas já existentes comprovam que há espaço para crescimento. As inovações são muitas: portadores de deficiências severas que não conseguem falar podem usar uma “prancheta falante” que trabalham com síntese de voz. Chamada de Vox Table, ela tem teclas com desenhos que significam ações simples, como comer e beber. O paciente encosta no botão correspondente e a máquina fala ‘quero comer’, ou ‘dói a cabeça’, facilitando a comunicação”.

“O Programa Braille Fácil merece destaque, pois permite que a criação de uma impressão Braille seja uma tarefa muito rápida e fácil, que possa ser realizada com um mínimo de conhecimento da codificação Braille. Através dele, tarefas simples como impressão de textos corridos são absolutamente triviais. E, como a impressão em braille chega a 1000 por cópia ampliando para larga escala, facilita a vida dos deficientes”.

José Antonio Borges

“Outro sistema que merece atenção é o MOTRIX, um software que permite que pessoas com deficiências motoras graves, em especial tetraplegia e distrofia muscular, possam ter acesso a microcomputadores, permitindo assim, em especial com a intermediação da internet, um acesso amplo à escrita, leitura e comunicação. O acionamento do sistema é feito através de comandos que são falados num microfone. Posteriormente, foi criado o MicroPhoenix, para quem tem inclusive a fala comprometida e pode comandar o computador através dos sons que sua boca é capaz de emitir, ou até com simples sopros”.

“No caso específico das pessoas com deficiência visual, os últimos 15 anos trouxeram uma verdadeira revolução tecnológica. Atualmente, é possível escolher entre as ferramentas gratuitas, como o próprio DOSVOX ou o leitor de telas para Windows NVDA, e os programas pagos como o leitor Jaws For Windows, da empresa norte-americana Freedom Scientific, e o Virtual Vision, da brasileira Micropower. Algumas empresas já trazem o sistema de acessibilidade incorporado em seus produtos, como acontece com o Voice Over, leitor de telas que é utilizado para todos os produtos da norte-americana Apple. Na parte física, temos ainda a indústria de próteses e de cadeira de rodas avançadas”.

Indústria de hardware do setor enfrenta barreiras, enquanto a de software mostra avanço

“A indústria de software está muito avançada, mas a de hardware infelizmente não. Todos os países favorecem a indústria que trabalha com as tecnologias assistivas porém, aqui não acontece o mesmo. As tecnologias assistivas dependem, em grande parte, das políticas de governo e, para esses projetos, o governo contrata desenvolvedores. Nas escolas vemos esse cenário mudar, muitas usam o braille. Portanto, na parte mecânica ficamos aquém e importamos o produto de países como Suécia, Estados Unidos, entre outros”.

“Essa situação se dá principalmente por se tratar de uma questão de investimento e de mercado. A criação dessas tecnologias é muito cara, é preciso muita pesquisa e de uma indústria capaz de realizar seu desenvolvimento. São produtos mais sofisticados. Recentemente, o produto que foi fabricado aqui é uma cadeira de rodas assistiva, que pode ser montada facilmente”.

Governos anteriores investiram em tecnologias assistivas

“É importante frisar que, nos dois últimos governos, foram criadas medidas para fortalecimento das tecnologias assistivas. Houve um investimento enorme e o Brasil se tornou o maior comprador de produtos de impressora de braille do mundo, além de utilizar o sistema DOSVOX e MecDaisy nas escolas públicas. Isso sem falar na implementação de tecnologias assistivas na área de saúde, ainda tímidos”.

“Hoje, tais sistemas já custam quatro vezes mais baratos do que no passado. É importante ressaltar também que órgãos como BNDES e Finep são parceiros nesse processo de financiamento. Existe uma dificuldade financeira para o desenvolvimento dessas tecnologias”.

Novidades no setor

“No momento, estamos desenvolvendo uma tecnologia interessante de aparelhos que utilizam apenas o movimento dos olhos, além de sistemas que prestam auxilío à audição e eletroestimuladores para caminhar com facilidade, os marcapassos cerebrais. Há pouco desenvolvimento na área médica e precisamos estar atentos a isso”.

O futuro das tecnologias assistivas no Brasil, o que esperar?

“O Brasil encontra o seu lugar em nichos, mesmo com poucos recursos, existe uma oportunidade de desenvolvimento e pesquisa nacionais. Com o subsídio do governo, conseguimos isso de maneira mais fácil. Portanto, o governo não facilita o empreendedor, a taxação é muito alta e os insumos são muito caros. Mesmo com esses pontos negativos, é um país que pode ser considerado líder em conhecimento tecnológico”.

“O que sugerimos é: deixem a universidade produzir. Apesar de todos os senões, somos pioneiros e criamos sistemas que têm ajudado muitos deficientes de todo o país. Hoje, temos cerca de 80 mil usuários do DOSVOX que tiveram suas vidas completamente modificadas. Isso nos dá muita alegria e orgulho. Mesmo com a cobrança tecnológica a qual estamos expostos, existe um grupo que produz e que dá a sua contribuição”