Intervalo

Humanidades Digitais: quando o software conta a história através do tempo

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Márcio GirãoMárcio Girão


Exemplo 1:

Em 1979, no Rio de Janeiro, nasce o Projeto Portinari para o resgate e digitalização da obra do grande pintor Candido Portinari, bem como da época em que viveu associando um ao outro. Levantaram-se 5.300 pinturas, desenhos e gravuras; mais de 25.000 documentos associando sua vida, sua obra e sua época; mais de 6.000 cartas e, de seu acervo, cerca de 10.000 periódicos, livros e monografias; além de 70 depoimentos.

O software que controla o acervo permite associar as pinturas a documentos por diversos mecanismos históricos e cronológicos.

 

Exemplo 2:

Um projeto chamado Visualizando Veneza unindo historiadores da arte, arquitetos e urbanistas em torno das universidades de Duke, Veneza e Padua, obteve resultados surpreendentes com a representação e animação em 3D de áreas específicas da cidade e como as construções, espaços públicos, incluindo das partes internas dessas estruturas, evoluíram ao longo dos séculos.

Veneza

Foram criadas representações digitais nas formas atuais das construções com a utilização de modernos mecanismos de varredura a laser, superpostos virtualmente a desenhos históricos, plantas de arquitetura e documentos diversos e, assim, obtiveram a animação da evolução histórica ao longo do tempo dos mesmos.
Além disso, a partir da animação, é possível clicar sobre os objetos num determinado período e obter os documentos históricos em que foram baseados.

Humanidades Digitais

Estes e muitos outros exemplos representam uma nova área de pesquisa e utilização prática denominada Humanidades Digitais – HD. Ela alia as disciplinas tradicionais das áreas humanas (história, filosofia, linguística, literatura, arte, arqueologia, música etc.) com as ferramentas oferecidas pela ciência da computação (hipertexto, hipermedia, visualização de dados, realidade virtual, recuperação de informações, mineração de dados, estatística, mapeamento geográfico etc).

Embora não haja ainda uma definição precisa de seu escopo e abrangência, uma espécie de crise de identidade, o certo é que seus projetos e pesquisas são resultado de colaboração entre os atores das disciplinas citadas e exemplificadas mais acima nesse texto.

O Início:

Tudo começou em 1946 quando um padre jesuíta italiano, Roberto Busa, resolveu indexar toda a obra de Santo Tomas de Aquino, palavra por palavra. Eram estimadas 10 milhões delas, projeto impossível de realizar com os recursos manuais disponíveis.

Tendo ouvido falar das maravilhas das recentes máquinas da IBM, três anos depois viajou aos EUA. Mesmo informado pelos engenheiros da IBM que tal tarefa era impossível com os recursos da computação da época, guardou um pôster que dizia: “as dificuldades a gente resolve de imediato; o impossível leva um pouco mais de tempo”, e seguiu para uma reunião decisiva com o presidente e fundador da IBM, Thomas Watson. A aliança foi feita.

Embora o “impossível” tenha levado cerca de 30 anos para se realizar, as pesquisas e seus resultados deram origem à nova área chamada Humanidades Digitais.

O dia 8 de abril foi eleito o Dia da Humanidades Digitais, no qual pesquisadores de todo o mundo publicam na internet detalhes sobre os trabalhos que estão conduzindo naquele momento. O objetivo dessa comemoração é responder a seguinte questão: O que, realmente, faz a Humanidades Digitais?

Leitura Remota

Uma aplicação, somente possível com os atuais recursos computacionais, cada vez mais utilizados nessa área, é a denominada Leitura Remota. Trata do uso de enormes acervos de documentos, livros e similares, para correlacionar suas informações e obter daí conclusões sobre perguntas que tenham utilidades específicas.

Considere, por exemplo, os documentos obtidos no Projeto Portinari do exemplo 1 acima. Podem-se relacionar suas cartas e pinturas para estabelecer uma relação entre seu estado de espírito e os temas que pintava; podem-se analisar as pinturas e concluir a preferência de Portinari sobre os estilos e técnicas da época nelas aplicados.

Nesse mesmo sentido, foi realizado um projeto liderado pelo historiador cultural Lev Manovich, que submeteu 6.000 quadros de pintores expressionistas franceses a um software que extraía estilos comuns nas imagens e as agrupava. Eles concluíram que mais da metade dos quadros seguiam os estilos vigentes à época e uma pequena porção deles representava o impressionismo.

Os historiadores cada vez mais fazem uso dessas ferramentas. Por exemplo, poderíamos rastrear o processo de libertação dos escravos e suas consequências analisando e correlacionando os jornais, livros e revistas, os contratos de trabalho que vieram logo depois, os registros escolares, as certidões de nascimento para acompanhar sua migração pelo país, o censo e assim por diante.

Panorama e Oportunidades

Vários grupos de pesquisadores no mundo se uniram em torno desse campo de pesquisa e trocam informações em blogs e sítios na internet e promovem seminários internacionais.

Portinari

Na Wikipedia listam-se as principais organizações internacionais envolvidas.

No Brasil tem-se o sítio do Grupo de Pesquisas Humanidades Digitais, abrigado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Nele consta, além do panorama atual das atividades internacionais, o Manifesto desses grupos citados.

O Brasil, por suas diversidades de vários tipos e rica tradição cultural porém, pouco explorada, constitui um terreno fértil para aplicações da Humanidades Digitais. Infelizmente, temos poucos projetos nesse sentido e iniciativas ainda tênues dos pesquisadores nas áreas afins.

Recentemente, o Comitê Gestor da Internet – CGI criou um grupo de Conteúdo Digitalne recepcionou vários projetos sobre a digitalização de acervos diversos. Espera-se a continuidade desse grupo e dos projetos propostos