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FENAINFO discute a Ciência da Computação nas escolas

Márcio Girão, presidente da FENAINFO, vai a Brasília para conversar com o senador Cristovam Buarque

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Conhecido por sua história pública dedicada ao debate da educação no Brasil, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), criador do Bolsa-Escola quando governador do Distrito Federal e ex-ministro da Educação, entre 2003 e 2004, conversou, em Brasília, com o presidente da FENAINFO, Márcio Girão, e com o assessor parlamentar da FENAINFO, Fernando Câmara. Em pauta, a situação atual das escolas públicas, do ensino superior e a necessidade de soluções e inovações imediatas que projetem resultados sólidos e igualitários para todos os brasileiros com base na Ciência da Computação.

O presidente da FENAINFO aproveitou o encontro para reforçar o caráter fundamental de se estabelecer uma educação apoiada em recursos da Tecnologia da Informacão para, assim, formar profissionais do futuro capazes de lidar com a nova realidade da TI nas vidas profissional e cotidiana. Durante a conversa, o senador ratificou a importância da TI para as novas e vindouras gerações, mas frisou que o Brasil enfrenta ainda problemas básicos e estruturais, com escolas sem o mínimo de sustentação e professores mal preparados. “A TI entra em todos os aspectos, e não se pode imaginar a educação sem Tecnologia da Informação. Colocar um aluno para assistir aula com um quadro negro é o mesmo que obrigar um de nós a ir de carroça daqui para Goiânia. O quadro negro tem que acabar”, afirmou Cristovam Buarque, que discorreu sobre vários temas relevantes, incluindo a taxação de impostos, o posicionamento das novas gerações diante da TI e as profissões do futuro.

Leia na íntegra a conversa com o senador Cristovam Buarque:

Márcio Girão – As profissões do futuro são aquelas ligadas à alta tecnologia e esta, por sua vez, está toda suportada pelo software. Será que o Brasil está educando seu povo para encarar esse novo desafio, uma vez que as escolas básicas estão mal aparelhadas e professores mal capacitados? Até mesmo nos EUA essa é uma preocupação constante. A partir da realidade exposta pelos números em que o PIB brasileiro é comprometido: juros da Dívida, 45%; Previdência, 22%; Educação, 5%; e Ciência e Tecnologia, 0,3%; Investimento médio por aluno de 3 mil dólares/ano (média internacional 8.300 dólares), nossa universidade melhor colocada no ranking internacional está na 330ª posição. Enfim, o Brasil gasta pouco ou gasta mal?

Cristovam Buarque – As duas coisas ocorrem: o Brasil precisa gastar mais e, sobretudo, gastar melhor. Se chover dinheiro hoje no quintal de uma escola, na primeira chuva vira lama, porque hoje o sistema educacional brasileiro não tem capacidade técnica de absorver mais dinheiro em quantidade, vai terminar por jogar fora. O certo a se fazer é substituir o sistema atual por um novo, no qual o atual desapareceria e um novo seria colocado como base. Desta forma, quando esse sistema estiver em vigência atendendo a 50 milhões de crianças brasileiras, haverá um gasto um pouco superior ao atual, mas que permitirá pagar um salário de R$ 10 mil aos professores, o que dará um custo anual por aluno de R$ 10 mil, que hoje é o mesmo número, considerando 30 alunos por sala de aula. Nós gastamos menos, e devemos, se quisermos fazer um salto. Mas gastamos muito mal, precisamos gastar melhor.

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O senador Cristovam Buarque e Marcio Girão, presidente da Fenainfo

Márcio Girão – O Ministério da Educação (MEC) tem competência adequada para lidar com a sua revolução (do Senador) para a educação? Ou teria que ser reinventado?

Cristovam Buarque – O MEC não tem competência adequada, porque precisa cuidar da educação de base e das universidades. O resultado é que a entidade acaba apenas cuidando das universidades. Os universitários têm forte organização e, hoje, o MEC é o Ministério do Ensino Superior, não o Ministério da Educação. É necessário se ter um Ministério só para a Educação de Base.

Márcio Girão – O senhor não acha que, em vez de reinventar, não seria mais adequado criar um novo Ministério?

Cristovam Buarque – É preciso concentrar a razão de ser do MEC na Educação de Base. Logo, o ensino superior deveria ir para outro ministério, como o de Ciência e Tecnologia, por exemplo. São muitos ministérios. Poderíamos, por exemplo, tirar 15 e criar um somente do Ensino Superior, ou criar o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior, deixando o MEC cuidando apenas da Educação de Base. A primeira tarefa seria implantar um novo Sistema Federal de Educação de Base. Esse sistema teria como objetivo instituir o horário integral em todas as escolas e unificar o currículo base.

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O senador não acredita em uma educação sem Tecnologia da Informação

Márcio Girão – Onde a TI entra nas estratégias de educação do Senador: universalização da educação, erradicação do analfabetismo de adultos e crianças de até sete anos de idade, implantação da escola base ideal, recuperação e ampliação física das escolas, equipamento pedagógico, educação à distância (TI pura), escola interativa, fortalecimento do ensino médio profissionalizante, acesso ao livro digital? O livro em papel ainda se justifica? Um tablet não seria mais adequado para a educação infantil?

Cristovam Buarque – A TI entra em todos os aspectos e não se pode imaginar a educação sem Tecnologia da Informação. Colocar um aluno para assistir aula com um quadro negro é o mesmo que obrigar um de nós a ir de carroça daqui para Goiânia. É notório: temos que acabar com o quadro negro. Os veículos do conhecimento moderno são as lousas inteligentes, os tablets e celulares, muito mais eficientes como material pedagógico. Os professores precisam ser mais flexíveis, deixando de ser condutores de carroça para se tornarem pilotos de nave espacial. Esses profissionais precisam ser bem remunerados, bem selecionados e avaliados, além de já dominarem essas tecnologias para aumentar a interação em sala de aula. Boa parte da violência vista nas escolas é justificada pela falta de interesse dos alunos, que não se identificam com escolas chatas, desagradáveis e sem interação.

Márcio Girão – Vou passar ao tema impostos. É inegável a contribuição da TI para os métodos mais modernos e eficientes de educação, em todos os níveis, e das empresas brasileiras que podem se juntar para produzir conteúdo nacional. Não é um contrassenso o Brasil cobrar mais impostos sobre aquisição de equipamentos de informática e telecomunicações e sufocar ainda mais as empresas do setor com impostos e burocracia?

Cristovam Buarque – É um contrassenso. Esse é um setor que deve ser incentivado ao máximo. Mas, para deixar de cobrar esses impostos, tem que saber onde deve se cobrar mais, pois não haveria dinheiro para comprar os equipamentos de TI por parte do Estado. Abre mão aqui, mas tem que saber de onde vai buscar.

Márcio Girão – Mas esse é um discurso do ministro da Fazenda, e não de um educador…

Cristovam Buarque – É um discurso de quem aprendeu aritmética e sabe que 2+2=4. O educador quer comprar seus equipamentos, mas precisa de recursos para isso. O contrassenso é querer comprar equipamentos de um setor que está em evolução e cobrar imposto dele. Para esse imposto ser tirado, ele deve ser transferido para outro lugar.

Márcio Girão – Todo projeto de informatização das escolas sempre esteve focado na própria escola, e nunca no aluno. O projeto do Negroponte (“one laptop per child”), de compra de um laptop por aluno, foi um fracasso. Não seria o caso de focar no aluno?

Cristovam Buarque – É necessário olhar para o aluno, assim como na saúde é necessário olhar para o doente, em vez de olhar para o médico, donos de laboratório ou produtores de remédios. Tem que olhar o que interessa o aluno, e em prol dele. Na realidade que vivemos, uma aula agradável precisa ter Tecnologia da Informação em todos os seus níveis.

Márcio Girão – Então, por que o governo não tira o imposto dos equipamentos de informática para os alunos, euiparando , por exemplo, a um livro?

Cristovam Buarque – O governo não está olhando para os alunos ou para a educação, mas sim para a sua própria contabilidade. A conta tem que fechar para ele.

Márcio Girão – Hoje é fato que as empresas não podem olhar apenas para o financeiro, mas devem focar na estratégia. Se existe uma estratégia de educação para o país, a contabilidade não é a parte principal, certo?

Cristovam Buarque – A contabilidade tem seu peso, mas os impostos de alguns setores devem ser reduzidos, sem cair na ilusão financeira, pois nada é de graça.

Márcio Girão – O Brasil não tem nenhuma tradição no desenvolvimento de software profissional, mas de software de gestão. Para isso, são necessários bons profissionais de ciência da computação nas escolas de Ciências Exatas, que são raros devido aos currículos das faculdades, defasados, que refletem o atraso tecnológico que o país enfrenta hoje. Não é hora de considerar a Ciência da Computação como um dos pilares da ciência, como a física e a matemática, e rever os parâmetros curriculares, especialmente os do ensino superior? O MEC está para publicar uma mudança curricular que não leva isso em consideração…

Cristovam Buarque – Concordo. O MEC não está pensando no currículo e nada vai mudar enquanto as escolas continuarem nas mãos dos municípios. Não adianta ter um currículo excelente se o prefeito não tem verba para executá-lo ou não pode pagar um professor qualificado. Dessa forma, fica tudo na mesma.

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Para Cristovam, o governo não está olhando para a educação, mas sim para a sua própria contabilidade.

Márcio Girão – Mas a escola, independentemente de ser estadual ou municipal, obedece a um currículo feito pelo MEC…

Cristovam Buarque – Sim, mas não tem como cumprir esse currículo se lá na ponta não tiver escola.

Márcio Girão – Nesse ponto, o senhor é a favor da federalização das escolas básicas?

Cristovam Buarque – Não tem outra solução. Deixar as escolas nas mãos dos municípios é condená-las à pobreza e à desigualdade. A desigualdade de receita per capita entre os municípios é maior do que a receita entre pessoas. Não tem como ter uma boa escola em um município sem receita. Por isso a escola federal é a melhor solução.

Márcio Girão – A FENAINFO e a SBC-Sociedade Brasileira de Computação pretendem fazer um projeto conjunto de incentivo à adoção de currículos fortemente profissionalizados em Ciência de Computação e nas escolas de Ciências Médicas e Exatas. O senador apoiaria esse projeto?

Cristovam Buarque – Apoiaria, mas como todo projeto, deve ser analisada a sua viabilidade. Para ser viável, os professores precisam ser capazes, bem preparados e receber bons salários. E, para que tudo isso aconteça, deve se federalizar a educação, como disse acima. O desafio é grande, porém, possível. Deve-se criar um novo sistema e não federalizar o existente. E toda essa mudança deve ser feita por cidades separadamente.

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Segundo o senador, deixar as escolas nas mãos dos municípios é condená-las à pobreza e à desigualdade.

Márcio Girão – Isso seria feito inicialmente em todas as escolas, já que as particulares começaram a fazer?

Cristovam Buarque
– Falo apenas das públicas, pois as particulares já são unificadas e federalizadas, como as do Objetivo, Positivo, entre outras. As que são isoladas seguem padrões em vários lugares. Mesmo assim, a desigualdade entre as particulares ainda é grande e a média das particulares está abaixo da média das federais.

Márcio Girão – Nos últimos cinco anos, 30% dos alunos que entraram no ITA são do Ceará, oriundos de três escolas que focaram em tecnologia. Não seria a hora de termos um projeto nacional de incentivo ao uso da TI, em especial da Ciência da Computação, desde o nível básico? O senador apoiaria um projeto com essa finalidade preparado pela FENAINFO?

Cristovam Buarque – Eu apoiaria totalmente, mas ele não dará certo se não houver o investimento na Educação de Base. Para se dar um salto na Ciência e Tecnologia, é preciso que se dê um salto antes na educação mais tenra. Projetos como este da Fenainfo são importantes. Cada criança sem escola é um talento desperdiçado, e o projeto deve ser tão ambicioso a ponto de não se desperdiçar nenhum talento. Resumindo: um projeto como esse não terá êxito para um jovem ou uma criança que não sabe as quatro operações básicas.

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Márcio Girão – Tocando neste ponto, as cotas não deveriam estar no Ensino Básico, em vez de estarem no Ensino Superior?


Cristovam Buarque
– A cota do ensino básico deve ser de 100%. Não existe cota de 10% para 53 milhões de crianças. Ou a Educação de Base pública se torna excelente, ou não vai ser para todos. Uma sugestão é que algumas escolas privadas possam ser consideradas públicas, ou seja, escolas que possuem donos privados, mas que exista uma concessão pública e que os alunos sejam escolhidos pelo Estado, que arcará com os custos. Seria uma parceria público-privada, mas seria uma parcela pequena do ensino, que deveria ser majoritariamente público. É uma solução viável e uma aposta para o futuro