Intervalo

Nova Revolução Tecnológica: Estamos realmente preparados?

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Márcio GirãoMárcio Girão


Em números anteriores da TI Maior, nesta mesma seção Intervalo, abordamos os temas da Inteligência Artificial, da computação quântica e da Indústria 4.0. Voltamos a eles a propósito do lançamento de excelente livro (ainda não disponível em português) “The Fourth Industrial Revolution” de Klaus Schwab, no qual não se limita à análise dos avanços iminentes da indústria em si, mas do enorme impacto que toda a sociedade vai experimentar nos próximos tempos com a chegada ao mercado, em curto prazo, de várias tecnologias altamente disruptoras e interligadas.

Klaus Schwab, alemão, engenheiro e economista respeitado internacionalmente, é fundador do World Economic Forum, órgão focado nas questões para um mundo melhor, engajando líderes e intelectuais nas áreas de economia e política (v. Wikipedia).

A seguir, fazemos um resumo (livre) de seus pensamentos expostos no livro ora citado, que merece uma reflexão de toda a sociedade nos seus aspectos sociais, muito mais que no consumista. A disrupção não é apenas tecnológica, mas principalmente social pelas consequências impactantes na forma como estabeleceremos as relações de emprego, as profissões que sobreviverão e a substituição paulatina do ser humano nas tarefas hoje por ele dominadas. Em resumo, é algo que a humanidade nunca experimentou antes.

Para se ter uma ideia de sua profundidade e rapidez, serão bilhões de pessoas conectadas em aparelhos móveis com enorme poder de processamento e armazenamento, tendo acesso a todo o conhecimento existente. Aliado a isso, teremos a confluência de tecnologias disruptivas abrangendo campos como a robótica; internet das coisas; inteligência e cognição artificiais; impressão em 3D que, aliada à ciência dos materiais o fará, por exemplo, em aço; automação e autonomia dos veículos; nanotecnologia; estocagem de energia e, por último, mas, talvez, o mais impactante; a computação quântica.

Tudo isso representando a fusão entre os mundos físico, virtual e biológico.

As incertezas e complexidade em torno das consequências para a humanidade pela adoção dessas tecnologias emergentes implicam uma enorme responsabilidade e absoluta necessidade do pensar junto entre seus principais atores: governos, empresas, academia e sociedades civil e militar. A compreensão compartilhada exigirá que se pense num futuro e exprima os valores e objetivos comuns da sociedade.

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Klaus Schwab, autor do livro ‘The Fourth Industrial Revolution’

As mudanças serão tão profundas que, na perspectiva da história da humanidade, nunca houve para ela um tempo de maiores promessas, ao mesmo tempo de perigos potenciais. Schwab alerta contra a linearidade e conservadorismo na forma de pensar dos atuais tomadores de decisão, apenas preocupados e absorvidos pelo imediatismo e que, por isso, não sejam capazes de raciocinar estrategicamente sobre as forças da disrupção e da inovação reformatando o futuro.

Ele declara-se temeroso de que esses atores considerem tais desenvolvimentos apenas como a extensão da atual revolução industrial (terceira) representada pela computação e robótica isoladamente. E apresenta três razões para justificar a distinção dessa nova revolução.

Velocidade: Os passos do desenvolvimento industrial não mais serão lineares, mas exponenciais, como resultado de um mundo multifacetado e totalmente conectado em torno de novas tecnologias que, por si mesmas, alavancam outras ainda mais inovadoras e disruptivas.

Abrangência e Profundidade: A revolução combina diferentes tecnologias em torno do meio digital e que levará a mudanças sem precedentes dos paradigmas atuais da economia, negócios, sociedade e individualidade (aí incluída a própria privacidade). Ou seja, não está mudando o modo do QUE e COMO fazemos as coisas, mas QUEM nós somos.

Impactos nos Sistemas: Ela envolve transformações nos sistemas atuais, entre e dentro dos países, empresas, indústrias e sociedade como um todo.
Antes de encerrar a Introdução ao seu livro, Schwab faz uma declaração que merece tradução literal.

“Acima de tudo, este livro pretende enfatizar a maneira pela qual a tecnologia e a sociedade coexistem. Tecnologia não é uma força exógena sobre a qual não temos nenhum controle. Nós não estamos restritos a uma escolha binária entre ‘aceite e viva com ela’ e ‘rejeite e viva sem ela’. Em vez disso, tome-se a dramática mudança tecnológica como um convite à reflexão sobre o que somos e como enxergamos o mundo. Quanto mais pensarmos em como ter controle sobre essa revolução tecnológica, mais examinarmos a nós mesmos e os modelos sociais que ela implica e permite, mais teremos a oportunidade de moldá-la de uma forma que torne o mundo melhor”.

“Conformando-a para assegurar que seja ao mesmo tempo empoderadora e centrada no ser humano, em vez de desumana e desagregadora, não é uma tarefa para setores, regiões ou culturas específicas. A natureza fundamental e global dessa revolução leva-a a influenciar e afetar todos os países, economias, setores e a população em geral. Torna-se crítico, portanto, investir atenção e energia na cooperação entre as partes acadêmicas, sociais e políticas, internamente e entre os países. Essas interações e colaborações serão necessárias para criar alternativas comuns positivas e esperançosas que permitam aos indivíduos e grupos de todos os lugares participarem e se beneficiarem das transformações vindouras”.

Trata-se, pois, de um livro obrigatório, pelo autor e pelo tema, aos que desejam refletir ou influenciar sobre os rumos sociais da humanidade nos próximos tempos. Um pequeno exemplo já ocorre em todo o mundo pelo fenômeno Uber, gerando conflitos e necessidade de reordenamento social, jurídico e econômico para suportá-lo. Outros virão com mais força ainda: fábricas sem operários, veículos sem motoristas, julgamentos sem juízes, autarquias virtuais, extinção dos cartórios (já irão tarde), educação completamente reformulada, conhecimento implantado etc.

Será que Karl Marx foi um visionário ao dizer sua mais famosa frase?: “Na fase superior da sociedade, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.”

Será que o Anarquismo ressuscitará com a extinção ou minimização do Estado como o conhecemos ou, o que é provável, o Capitalismo, finalmente, transferirá sua função objetivo do lucro para o bem-estar social geral, fundindo-se assim com o ideal Socialista?

Valerão as previsões (para 2014) do escritor Isaac Asimov, por exemplo, tendo o robô como um eterno escravo subserviente ao Homem?

São questões em que todos nós estaremos envolvidos desde agora, em especial os que lidam com a Tecnologia da Informação, centro e origem de tudo

Previsão do escritor Isaac Asimov