Intervalo

Vamos ensinar Ciência da Computação (CC) para nossas crianças?

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Márcio Girão


Recentemente, o ex-ministro da fazenda no governo Sarney, Luiz Carlos Bresser-Pereira, em entrevista à Folha de São Paulo, entre outras considerações, fez um apanhado sobre os problemas do desenvolvimento nacional.

Sendo um advogado-economista, concentra suas explicações nas questões macroeconômicas, mas esquece que no cenário mundial atual, sem tecnologia avançada dominada pelo país, nenhuma ginástica econômica resolverá o problema da geração de riqueza nacional compatível com os países mais avançados.

Somente cita a palavra tecnologia ao responder à pergunta se a desnacionalização preocupa: “Profundamente. É uma tragédia. Vejo uma quantidade infinita de áreas dominadas por empresas multinacionais que não estão trazendo nenhuma tecnologia, nada. Simplesmente compram empresas nacionais e estão mandando belos lucros e dividendos para lá. Isso enfraquece profundamente a classe empresarial brasileira e, assim, a nação. ”

Dito isto, passemos ao assunto da seção Intervalo do mês, exemplificando como um país que tem na tecnologia sua principal alavanca desenvolvimentista, a incentiva desde a mais tenra idade de seus cidadãos.

CODE.ORG

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Hadi Partovi, fundador do CODE.ORG

Em fevereiro de 2013, foi lançado um vídeo de pouco mais de 5 min que terminava assim: “Um milhão dos melhores empregos nos EUA não serão preenchidos porque apenas uma em cada dez escolas ensina programação. Queira você ser médico ou astro do rock, peça aulas de programação em sua escola, ou aprenda online em CODE.ORG. Compartilhe esse vídeo”. O vídeo continha depoimentos de Bill Gates, Mark Zuckerberg, entre outros feras-milionários de TI, falando sobre ciência da computação.
(selecione assistir no youtube para legendas)

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Dez meses depois, foi lançada a campanha “A Hora do Código”, gerando um verdadeiro tsunami com a adesão de mais de dez milhões de estudantes em apenas três dias. De longe, tornou-se o maior evento de difusão rápida na história, em educação e tecnologia.

A CODE.ORG foi fundada pelo iraniano Hadi Partovi, exilado com os pais nos EUA durante o regime do Aiatolá Khomeini. Ele próprio foi um estudante precoce de computação ao ganhar dos pais, ainda no Irã, aos 10 anos, um microcomputador Commodore 64. Ao chegar nos EUA, já era um programador consolidado e teve seu primeiro trabalho de engenharia de software aos 15 anos de idade.

Seus principais argumentos foram objeto de uma conversa com o presidente Obama, pouco antes de sua empreitada, para convencê-lo a engajar o país e suas escolas em seu projeto. Primeiro, para quebrar o gelo, discorreu o óbvio, sobre a importância do ensino da ciência da computação; como incrementar a participação feminina no interesse pela profissão em TI (um sério problema naquele momento); e como ajudar a resolver o problema de desemprego qualificado nos EUA.

 

Então, vieram os números:

O impacto do incremento da educação em CC projetava um crescimento de 3×1 nos empregos de software;

Havia uma lacuna entre empregos e estudantes de 1 milhão de cargos para os próximos 10 anos, no valor de U$500 bilhões em salários na indústria em geral;

O setor de TI estava entre os maiores salários do mercado mundial e com forte impacto multiplicador em empregos correlatos (de 3 a 4x);

Finalmente, o conhecimento básico de software e internet era, cada vez mais, um fator crítico na empregabilidade dos estudantes na economia do conhecimento.

O objetivo, declarado por Hadi Partovi ao fundar sua organização CODE.ORG, foi: levar a CC a cada escola pública norte-americana, até que se torne um item fundamental da educação nos EUA. Tem apoio oficial e recursos advindos de doações e parcerias. Vão atingir o objetivo.

E no Brasil….

Enquanto isso, as iniciativas do governo, como no programa TI Maior, limitam-se à formação de profissionais técnicos, já (quase) adultos, para servir de mão de obra na prestação de serviços de TI, em geral nas grandes empresas multinacionais do setor; não que não seja importante, mas é pouco.

Os currículos de TI nas escolas superiores de engenharia, biotecnologia e correlatas são triviais, ensinando apenas os fundamentos de alguma linguagem de programação, quando tanto. Ignora-se solenemente que a computação é o mais novo pilar da ciência-tecnologia-inovação, ao lado da matemática, física e química.

Nas escolas do ensino fundamental e médio, o uso dos computadores é, essencialmente, para a aprendizagem do sistema operacional, aplicativos mais comuns, jogos e pesquisas. Não se tem notícia de ensino da CC.

Ainda assim, existem algumas iniciativas isoladas de difusão de mecanismos de ensino da CC, como o projeto Programaê!, parceria entre a Fundação Lemann e a Fundação Telefônica Vivo, que oferece algumas ferramentas com essa finalidade, inclusive o CODE.ORG .

Outro exemplo que merece menção é o da Fenainfo que tem apoiado uma competição de algoritmos para equipes das pouquíssimas escolas de ensino médio/técnico no Brasil que lecionam esta disciplina, tentando estimular que mais escolas se envolvam com a CC.

Um projeto dessa envergadura deveria atingir a totalidade de nossas escolas, especialmente as públicas, onde já são investidos recursos substanciais na aquisição de equipamentos de informática. Logo, exige a participação ativa dos governos que regulam e controlam essas escolas.

E o futuro que precisamos (ou gostaríamos)…

Lógico que não compartilhamos a famosa frase que preconiza que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Mas como seria benéfico ao nosso país, agora, ouvirmos de nossa presidente o que eles ouviram do seu (veja o vídeo abaixo) quando se referiu ao CODE.ORG!
(selecione assistir no youtube para legendas)

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